quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Música: Poema

Belíssima canção que Ney Matogrosso interpreta. Após esse hiato produtivo de mais de um mês sem postar nada no blog (e sem escrever nada, até mesmo fora do blog), peço desculpas aos seguidores. Mas, todos têm os seus momentos de altos e baixos, principalmente literários...




Poema

Intérprete: Ney Matogrosso
Composição: Cazuza / Frejat


Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo e procurei no escuro
Alguém com seu carinho e lembrei de um tempo
Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo
Hoje eu acordei com medo mas não chorei
Nem reclamei abrigo
Do escuro eu via um infinito sem presente
Passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim
De repente a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua
Que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio mas também bonito
Porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu
Há minutos atrás

domingo, 31 de outubro de 2010

Poesia: Vende-se um Coração

VENDE-SE UM CORAÇÃO
(Mateus Almeida Cunha)


        [poema resgatado de manuscritos
do ano de 2005 ou 2006.
Esquecido pelo tempo,
dormindo num sono tranquilo e profundo]


Vendo um coração semi-novo, pouco tempo de uso,
com pouca, quase nenhuma experiência amorosa. 
Passou por algumas emoções, é certo
mas, nenhuma como a que se pretendia.


Batidas cardíacas rítmicas, compassadas:
traz também tantas tristezas...

Funciona quase perfeitamente:
só não dispara grande emoções.


Permanece gélido, fraco, inconsólito
carregando em si, sua própria seiva: sangue.


Rubro, já não se declara:
repara os enamorados.


Quem o quiser, falar com
o Sr. Preciso Amar Agora.


Endereço: Rua da Saudade, n.º 103
Edifício da Carícia, 4º andar, Praça dos Amantes.


Observação: único dono.
Pouco uso pelas circunstâncias.




[comentário: fiz numa época em que lia Drummond 
com uma intensidade fantástia e acho que, 
nesse poema, consegui carregar um pouco da sua influência.
Ao reler, percebi isso.]

sábado, 30 de outubro de 2010

Crítica: Histórias de Canções: Toquinho



Crítica - Histórias de Canções: Toquinho


Há bastante tempo que eu não postava uma crítica literária. Não que eu tenha parado de ler. Pelo contrário, a leitura continuou, mas não sei explicar o motivo de não fazer meus comentários. Anteontem comprei um livro muito bom intitulado "Histórias de Canções: Toquinho", que foi lido compulsivamente (acabei de lê-lo ontem). O livro foi escrito por João Carlos Pecci (o irmão de Toquinho) e por Wagner Homem, como continuação da série que trata do processo de composição de algumas canções (já saíram os de Chico Buarque e de Paulo César Pinheiro). A publicação é da editora LeYa, lançado agora em 2010.

Há aquelas pessoas que, de imediato, não conseguem saber quem é Toquinho, mas basta entoar alguns versos da canção Aquarela ("Numa folha qualquer eu desenho um Sol amarelo..."), para reavivar suas memórias. Antonio Pecci Filho pode parecer um "desconhecido", mas o apelido dado pela sua mãe por ser um "toco de gente" (na primeira infância) fez de Toquinho um artista incrível, cheio de parceiros fantásticos (Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Paulo César Pinheiro, Sadao Watanabe, Francis Hime etc.), marcado principalmente pelos acordes harmoniosos no seu inconfundível instrumento: o violão. 

E, aos que não sabem, a surpresa de que a canção Aquarela, ou melhor, "Acquarello" foi criada originalmente em italiano, em 1982, numa parceria com os italianos Maurizio Fabrizio (melodia) e Guido Morra (letra). Enquanto Toquinho e Fabrizio faziam a melodia, Toquinho sugeriu que usassem parte da melodia da sua canção com Vinícius, "Uma Rosa em Minha Mão", do álbum da trilha sonora da novela Fogo Sobre Terra (1974), da Rede Globo. Fabrizio topou e, segundo o livro, em menos de três minutos eles tiveram a melodia da sua composição de maior sucesso e com repercussão mundial. Depois, Guido Morra ficou incubido de letrá-la. Após o estrondoso sucesso que fez na Itália, Toquinho resolveu fazer uma versão para a sua canção em português. Também foi um sucesso no Brasil, Argentina, França... Eu tenho, inclusive, uma versão dela também em espanhol. Certa vez, ouvi uns boatos de que existe outra versão em francês, mas nunca consegui encontrar...

O livro aborda tudo isso, com ênfase no processo "criatório" das canções, passando também por uma breve biografia do cantor, compositor e instrumentista, além de situar o leitor na época histórica em que os fatos aconteceram, com histórias muitas vezes hilárias sobre suas parcerias. É evidente que muito mais poderia ser abordado (algumas vezes o foco parece ser no nosso, agora Embaixador, Vinícius de Moraes). O livro muitas vezes limita-se a escrever apenas um parágrafo para explicar uma canção. Há a abordagem na apresentação, em algumas páginas, de parte da sua discografia (mas, pelo que conheço, muitos de seus álbuns não foram sequer comentados. Para ter certeza disso, bastou eu olhar para a minha coleção com seus CDs). Como ponto fraco, há também algumas falhas recorrentes na grafia, com erros grosseiros da nossa língua portuguesa (falta de pontuação, falta de concordância em número, inserção de letras que não existem, como no caso do colega Mutinho que, num momento virou "MuItinho"). O final, que poderia ter sido em chave-de-ouro, com os próximos passos, talvez, limitou-se a apenas um parágrafo, seguido de uma foto de contraste (com a do início do livro) de Toquinho, na idade adulta, com seus pais.

No ano de 2009, depois do show com o MPB 4, no Teatro Castro Alves (Salvador, Bahia), tive a oportunidade de tirar uma foto com essa figura fantástica que marcou minha infância (pelas canções) e que faz parte da minha "trilha sonora de vida" até hoje. 

Entretanto, os pontos fracos citados não inviabilizam a leitura da obra que é fantástica, com uma narrativa extremamente leva e empolgante, principalmente com as letras das canções que são colocadas estrategicamente antes ou após as suas respectivas explicações. Muito bom! Vale a pena!

domingo, 17 de outubro de 2010

Divagações: O Amor Não Resolve Nada (José Saramago)

O AMOR NÃO RESOLVE NADA
(José Saramago)


Concordo mais uma vez com Saramago... Essa história de amar uns aos outros não existe. Temos de RESPEITAR uns aos outros! Como posso amar um estranho? Tenho apenas de respeitá-lo e isso basta.

Por Fundação José Saramago  (http://caderno.josesaramago.org/2010/10/01/o-amor-nao-resolve-nada/ )


O amor não resolve nada. O amor é uma coisa pessoal, e alimenta-se do respeito mútuo. Mas isto não transcende o colectivo. Levamos já dois mil anos dizendo-nos isso de amar-nos uns aos outros. E serviu de alguma coisa? Poderíamos mudá-lo por respeitar-nos uns aos outros, para ver se assim tem mais eficácia. Porque o amor não é suficiente. [José Saramago]

“Saramago, el pesimista utópico”, Turia, Teruel, nº 57, 2001

Divagações: Não se sabe tudo, nunca se saberá tudo (José Saramago)

NÃO SE SABE TUDO, NUNCA SE SABERÁ TUDO 
(José Saramago)



O texto a seguir foi retirado integralmente do Blog de Saramago, O Caderno, que eu já acompanhava desde antes da sua morte. A postagem está disponível em: http://caderno.josesaramago.org/ . Acho que não há nenhum comentário a fazer já que, por si só, ele é autossuficiente.


Outubro 15, 2010 por Fundação José Saramago


Não se sabe tudo, nunca se saberá tudo, mas há horas em que somos capazes de acreditar que sim, talvez porque nesse momento nada mais nos podia caber na alma, na consciência, na mente, naquilo que se queira chamar ao que nos vai fazendo mais ou menos humanos. [José Saramago]



In As Pequenas Memórias, Ed. Caminho, 2006, p. 17

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Ensaio: Legalização do Aborto

LEGALIZAÇÃO DO ABORTO
(Mateus Almeida Cunha)


Considero a prática do aborto algo abominável, com algumas exceções: risco de morte à mãe, anomalias e/ou mutações que impliquem na vida da criança, estupro e outras situações específicas. Portanto, sou contra o aborto (o ato). Entretanto, não sejamos hipócritas a ponto de tentar tapar o Sol com a peneira (como se dizia antigamente), cerrando os olhos e crendo que vivemos num mundo ideal (que não existe!). Aborto sempre existiu e, até que se prove o contrário sempre existirá (infelizmente). As civilizações antigas têm relatos (provas) da existência de fetos oriundos de abortos. Chás de ervas abortivas também são muito antigos.

O fato é que, atualmente, no ato abortivo quando "bem sucedido" (se é que essa expressão "bem sucedido" pode ser usada...) "apenas" a criança morre. Entretanto, pelas condições precárias de higiene/salubridade das atuais "clínicas" clandestinas de aborto, é muito comum que a (ex-)gestante fique com alguma infecção, hemorragia ou sequela para o resto de sua vida. Hemorragia essa que, por muitas vezes à leva a morte. Se fosse legalizado, ao menos existiriam clínicas "decentes" para realizar esse ato repugnante e, na maioria das vezes, abominável, e ao menos as mulheres não morreriam. "Apenas" a(s) criança(s) morreria(m). Não pensemos nisso como um ato em que induziria as mulheres a praticarem. Isso é besteira! A pergunta é: você, mulher, faria algum aborto só porque seria legalizado? Você, homem, crê que sua mãe, esposa ou filha começaria/começará a sair abortando em suas gravidezes acidentais só porque é/seria legalizado? Quem sempre o fez continuará a fazer.

O cigarro é uma droga legal e eu (assim como diversos amigos e familiares) nunca fumamos (tampouco experimentei) só porque é uma droga lícita encontrada facilmente. Por que, com o aborto seria diferente? Temos diariamente dezenas de escadas à nossa frente e nunca nos jogamos delas. Por que, uma mulher, que nunca cogitou abortar, em sã consciência iria fazê-lo só porque seria legal? Isso faz sentido?

Não queiramos permanecer na sombra, causada por nós mesmo e vamos enxergar as coisas como eles são: vamos salvar, ao menos, uma vida ou vamos continuar fazendo de conta que esta tudo bem, deixando que dois/duas morram por vez?

Pensemos assim: contra o aborto (em condições de irresponsabilidade) e à favor da sua legalização. Vamos salvar ao menos uma vida, já que não temos domínio das duas! 

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Ensaio: Dilma não vencerá as eleições

DILMA NÃO VENCERÁ AS ELEIÇÕES
(Mateus Almeida Cunha)

Dilma não vencerá as eleições! Não digo eleição, mas eleições, porque soa a ELES “SÕES” uns merdões... A candidata do presidente Lula, sim: essa deve ganhar. A primeira presidentA (sic!) do Brasil. Preferia ter umA presidente, não uma presidentA. Soa parecido com presidANTA. Quando me refiro à candidata de Lula que, por acaso é Dilma, quero dizer que poderia ser qualquer pessoa (ou “não-pessoa”), como Fofão ou até mesmo a Vovó Mafalda. Dilma dará continuidade aos “grandes feitos” do governo paterno-assistencialista de Lula, cheio de auxílios-miséria: Bolsa-esMOLA, Bolsa-QUADRIlha, Auxílio-MAIS etc. Não podemos esquecer que, para Obama, Lula é “O Cara” (creio que, com o ó e o cê maiúsculos) enquanto que, para Caetano Veloso, ele é um cafona grosseirão (apesar do disse-não-disse, foi-não-foi, desculpas-não-pedidas-pedidas), “ou não”, como Caetano disse que nunca disse o “ou não”. E Caetano está certo.

Essa eleição me pareceu uma grande corrida de personagens de desenho animado. De um lado, a candidata de Lula (Molusco), Dilma (Calça Quadrada), para governar o Siri Cascudo... De outro, Mr. Burns (d’Os Simpsons), José Serra (a Amazônia), querendo dominar Springfield (possivelmente no eixo Rio-São Paulo), com as questões da Saúde (talvez por puro arrependimento pela Usina Nuclear de Springfield em que Hommer Simpson trabalha), para se redimir. Temos também a doce Marina (em quem votei, votaria e votarei na próxima eleição, em 2014. "Marina morena, Marina...") que parece o Capitão Planeta e o lema: “o poder é de vocês!”, com as forças da natureza “fogo”, “água”, “terra”, “vento” e “coração”. Acho que as personagens representavam esses poderes, mas é bem provável que a memória tenha falhado. Plínio não parece um desenho animado, ele é de carne e osso (mais osso do que carne, inclusive...). Sua figura assemelha-se à Spock (ou Spok, não sei) daquele seriado antigo intitulado “Jornada nas Estrelas”. Se não me engano (e quase nunca me engano), só restam duas opções parE (ops! "... parA...") Plínio: (1) voltar para o seu planeta de origem e nos mostrar o seu líder ou; (2) voltar para o Velho Testamento da Bíblia, como irmão de Noé, de Caim ou algum outro daqueles personagens sesquicentenários que só a Bíblia retrata existirem.


Então, fico com a pergunta: o que será do Segundo DURmo?

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Reflexão: Ser Feliz Serve pra Quê?

Preciso ler mais Clarice Lispector! Já se foram: A Hora da Estrela, Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, A Mulher que Matou os Peixes, A Paixão Segundo G.H. e Um Sopro de Vida (Pulsações), mas ainda estou sedento.

Hoje, o que mais me instiga nela é: "ser feliz serve pra quê?"

Eu também não sei,
afinal todos morremos um dia!

Daqui a setenta anos,
setenta meses,
setenta semanas,
setenta horas,
ou setenta minutos?
Hoje, se tenta viver.

A hora, sessenta minutos,
enquanto sessenta segundos,
carregam o minuto etéreo.
Hoje, se senta, e se espera.

Cinquenta anos em cinco, JK. Agora eu te entendo!

Sem mais, Mário, "alguns passarão, eu passarinho".  

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Pensamento: Hiato (re)produtivo

Estou num hiato produtivo,
ou num hiato (re)produtivo?

Citação: Calcanhotto (I)

Citando (Adriana) Calcanhotto:


"...
meu amor, cadê você?
eu acordei, não tem ninguém ao lado
..."

Poesia: Sobrevivência (Mateus Almeida Cunha)

SOBREVIVÊNCIA
(Mateus Almeida Cunha)



Vivo,
sobrevivo.

Bestifico,
petrifico.

Reflito,
repito,
reflito.

Existo.
Existo?

Sobrevivo...
sobretudo vivo.


(numa longa quinta-feira, tentando sobreviver)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Poesia: Sobre a Saudade IV (Mateus Almeida Cunha)

Sobre a Saudade IV
(Mateus Almeida Cunha)



Aquela outra estrada,
aquela cidade arrasada,
aquela paixão destroçada.

Aquilo, por dentro, emoção.
Aquilo que nunca saberão,
aquilo em que nunca acreditarão.

Saudade,
vontade,
voracidade.

Aquela vontade contida,
aquela verdade adormecida.
aquela voracidade perdida.

Aquilo que, aos poucos, se esvai,
aquilo que, de dentro, não sai,
aquilo que, aos poucos, lhe trai.

Saudade,
verdade,
caoticidade.

Aquela outra despedida.
Aquela outra, esquecida.
Aquela outra, distraída.

Aquilo que quedava adormecido.
Aquilo que queima escondido,
aquilo que findava esquecido.

Saudade,
invade,
maldade.

Aquela ausência perdida
Aquela triste partida
Aquela outra ferida

Aquilo que vem lá do fundo,
aquilo que dorme maribundo,
aquilo que desconstrói seu mundo.

Vontade contida,
paixão recolhida
audácia perdida.

Saudade,
invade:
vontade.


[numa saudosa noite de terça-feira,
com saudade de alguém]

domingo, 15 de agosto de 2010

Crônica: A Hora Íntima (Partes 1, 2 e 3)

CRÔNICA:
A HORA ÍNTIMA - Partes 1, 2 e 3



A HORA ÍNTIMA – PARTE 1: PESSIMISMO

Não, não venham me contar que a passagem do tempo é maravilhosa, porque isso é uma grande falácia. Não é possível que não consigam perceber a grande tragédia que há nisso. Os cabelos brancos que insistem em nascer em plena “vintolescência” (a época dos vinte aos vinte e nove anos, após a adolescência, mas ainda com vestígios significantes desta idade). Aquelas amigas lindas que se têm e que surgem espantosamente grávidas e, por mais que a gravidez seja uma coisa maravilhosa, as deformam por um grande tempo. Sim, deformam! Aquela esfera suntuosa que vai crescendo indefinidamente por nove meses até não mais caber a ponto de explodir levando pedaços de corpo consigo amarradas a uma criaturinha capaz de respirar, emitir sons e conseguir, sozinha, encontrar os seios fartos de leite para saciar sua fome e sede. Aqueles amigos de longas datas que, por sorte ou ironia do destino traçaram caminhos distintos e, quando os encontram estão irreconhecíveis, devido às transformações físicas. Se achamos isso deles, o que acharão de nós, reles mortais em meio ao tempo que nos transforma...

Basta olhar para as fotografias antigas, na época chamadas de “retratos” (detalhe) e ver os pais e tios, em plena forma física, corpinho sarado, barriguinha definida (à moda da época, mas ainda assim está valendo), vestidos naquelas roupas horrorosas que não vêm ao caso. E hoje, sessentões, setentões em plena forma de “coroas em cima” ou de “conservados”. Nunca consegui identificar ao certo se “conservado, quando referido a alguém, quer dizer um elogio ou uma grosseria disfarçada. Se, por um lado, significa dizer que a sua aparência está ótima e lhe tecem de elogios, porque você está “conservado” ou ainda “conservadíssimo”, enchendo os lábios, principalmente das mulheres, de sorrisinhos discretos e pouco disfarçados, por outro significa que “apesar” da sua idade, você está bem. E isso, geralmente não se pensa. Ou ainda, se pensam nisso, preferem não comentar e ficam apenas com a primeira opção. É isso: restam ainda alguns incertos (e cruéis) anos que nos virão até nos carregarem ao leito do único destino que há a nos esperar...


A HORA ÍNTIMA – PARTE 2: REALISMO

Sim, como o tempo passa. É verdade que “inda ontem” era um bebezinho e hoje está aí, no auge dos seus vinte anos. Tem um ótimo emprego, apesar de não ser remunerado como deveria, isso é verdade, mas ganha bem. Ganha o suficiente para uma pessoa solteira se sustentar com bastante folga, sim, por vezes o dizem. E quanto às gravidezes das jovens? Ah, sim, poderiam esperar um tempo mais, por que não? Mas se isso lhe veio cedo, isso pode ter sido bom. Quiçá nunca mais tivesse filhos, assim como sua tia, que ficou “seca” e solteira. Ao menos terá alguém que lhe socorra na velhice. Nunca se sabe, nunca se saberá... Aliás, ainda bem que não se sabe do futuro.

Quando se olham os “retratos” antigos da família, se vê como eram unidos. Por certo que hoje, cada um “foi para o seu lado”, mas ainda temos os momentos que passamos juntos: o Natal e... bem, o Natal apenas. Mas é isso mesmo, o que há de se esperar? Que todos fiquem dependentes sempre? Cada um tem a sua vida, o seu ritmo. E o que importa é que somos uma família. Isso é clássico de famílias ditas tradicionais.

Vejam os amigos de nossos pais, como estão todos conservados. É certo que não possuem mais “a beleza da juventude” e carregam consigo algumas marcas do tempo indicando a experiência, a maturidade, mas estão muitíssimo bem. Têm saúde e isso é o que importa!


A HORA ÍNTIMA – PARTE 3: OTIMISMO

Ah, essa juventude... cheia de virilidade. Olhem aquelas jovens grávidas, que lindas! É melhor ter filhos na juventude, para poder vê-los crescer, acompanhar de perto cada instante do seu crescimento, brincar com eles, ter “pique” para levá-los aos shows que quiserem. Ah, esses meninos... e como gostam de se divertir. São incansáveis! Não há nada mais realizador que ver os filhos crescer, atingirem a juventude e chegarem à idade adulta com saúde e dignidade. Quantos são os que se perdem nesse caminho...

E a idade dos seus vinte anos? Fantástica! São independentes, ainda que vivam conosco, estão terminando os estudos ou estão formados, têm seus salários. Saem com os amigos, se divertem, é claro que bebem um pouco a mais do que bebíamos na nossa época, mas os jovens “de hoje” são assim mesmo. É claro que, nessa idade, pela sapiência da natureza, possuem os corpos bonitos, para causar a atração sexual e poderem se reproduzir devidamente. Estão completamente formados e prontos para perpetuar a espécie.

É sempre bom rever a família nessas festividades de final de ano, porque durante o ano é impossível. É bom ver que a família permanece unida sempre, apesar da distância. A festinha de amigo secreto serve muito pra isso também: descontrair. É só olhar e ver que todos estão muitíssimo bem!

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Crônica: Cabelos e Traições (uma noite no salão) - Márcia Carneiro

Fiquei muito surpreso, hoje, ao receber por e-mail uma crônica de uma prima, Marcia Carneiro, que tratou o cotidiano de forma muito sutil e extremente bem-humorada. Esse texto também merece ser publicado: é ótimo! Segue, a seguir, na íntegra.


Cabelos e Traições
(uma noite no salão)
Márcia Carneiro
Ago/2010


Ontem voltei ao salão de beleza (sic) onde costumo fazer escova progressiva. Foi um trajeto do trabalho ao salão foi cheio de apreensões. Como contar à minha cabeleireira que eu havia "pulado o secador" e feito uma escova em outro salão? Esconder não era uma opção. Só de olhar essas profissionais são capazes de dizer até se você mudou de Shampoo.

Enfim, fiz o sinal da cruz e entrei. Fui super bem recebida, com um longo abraço e dois beijinhos. Claro, ainda não tinha dado tempo de Soninha olhar direito os meus cabelos, nem fazer as contas há quanto tempo eu não ia lá. Não sou frequentadora assídua, mas bato meu ponto umas 4 vezes no ano. E a última vez havia sido em novembro do ano passado.

A Soninha, talvez inspirada em nossa futura PresidentA (como ela mesma diz), estava usando um capacete.... arrumou os cabelos de tal forma e cor que era isso me lembrava: um capacete tal qual o de Dilma.

Após os beijinhos ela me conduziu à cadeira. Pronto, chegou a hora. Tenho que contar. Ai, será que ela me perdoa a traição ? Vou contar bem devagar....

Soninha comentou que eu estava sumida e que não aparecia desde.... ficou aquele silêncio constrangedor. Não sei mentir. Não gosto de mentir. Mas florear não faz mal. Disse quase a verdade, num tom que pedia compaixão.

Pronto, confessei. Havia sim tido uma experiência "extra-salão" com outra cabeleireira. Soninha ficava me encarando com um olhar de desprezo. E aí perguntou: "Você deixou a "outra" cortar seu cabelo também? Você nunca me deixou cortar...". Sim, deixei, mas foi num momento de desatino. Traição sempre deixa marcas profundas. Especialmente no traído. Tremi por dentro. Havia também pintado os cabelos há pouco tempo. Mas acho que Soninha passou batida por esse detalhe. Uffa...

Ficou uma tensão no ar. Soninha pegou os produtos e fomos lavar os meus cabelos. Que mão pesada. Quase chegava ao meu cérebro. As orelhinhas eram quase arrancadas em cada passada de mão. Enfim, sobrevivi a isso, mas ainda não havia acabado.

Voltamos pro salão principal. Ela enxugou meus cabelos com força e desembaraçou sem dó. A cada puxada do pente, minha cabeça pendia até o braço da cadeira. Depois espalhou o creme principal, tudo isso de cara feia pra mim, e me levou pra um secador que emitia ondas térmicas. Como eu sempre fiz escova lá e Soninha nunca me botou nesse secador, fiquei imaginando que poderia acelerar o processo do creme. Qual nada, era apenas castigo, pra queimar levemente meu couro cabeludo e minhas lindas orelinhas.

Soninha "jogou" uma Caras antiga no meu colo e me largou lá, esquentando a cabeça, por 20 minutos. Bolinha ninja; fez cortina de fumaça e desapareceu.

Ao menos me distraí com a revista. Muitas novidades. Agora sei que Preta Gil está mais segura profissionalmente, embora ainda se ache gorda. Que a Gabriela Duarte mantém a forma indo à praia com a filha pequena. Giovanna Antonelli foi também à praia, grávida de gêmeas, e levou o filho de Benício. Uma modelo, também grávida, estava na praia de Copacabana. Uma tal de Fontini mantém a forma voltando da praia e bicicleta. Ana Maria Braga, que havia informado publicamente o fim do romance com mais um segurança, passeava e se alongava com o tal fofo. Outra modelo, também grávida, caminhava na praia em companhia do seu personal. Que um lindo casal foi pra Ilha de Caras e lá fingiu que leu vários livros de arte. Ah, a moça ficou encantada com um pingente fofo que ganhou por lá e gostou especialmente do cordão que veio com o pingente. Quem sabe usa pra se enforcar. Luiza Tomé também foi pra Ilha de Caras. Meu Deus, quantos anos tem essa criatura? Acho que uns 80, ela sempre foi "coroa". Parece que todo mundo da revista Caras passa o dia grávida na praia de Copacabana ou na Ilha de Caras com o namorado feio.

Vingança, vingança, vingança !!!

Acho que a raiva dela foi acalmando e o trabalho transcorrendo com relativa tranquilidade. Exceto pelo não uso de protetor de orelhas que evita aquele ar quente adentrando meus orifícios auriculares... Justo, eu não merecia proteção alguma mesmo.

Quando acabou o procedimento, ela me disse com ironia "Vai voltar aqui quando agora ? Em dezembro ?" Com toda paciência do mundo disse que voltaria, conforme o costume, dentro de 4 meses.

Ninguém me ofereceu água, chá ou cafezinho. Ok, paguei minha penitência.

Mas uma cabeleireira, que havia concluído a escova de outra cliente, veio conversar comigo. Não sem antes dar o álbum de formatura da filha pra cliente ver. Fiquei com medo de ela trazer o álbum pra mim também. Não pedi, não dei sinal de que estava precisando conversar, nadinha... Permanecia em silêncio, de olhos fechados (e ardendo), na minha insignificância.

Bom, a fofa me deu uma aula sobre Babosa... Ela era representante de uma fábrica que fazia tudo com babosa. Babosa serve pra tudo, gente. Ela me contou que todos os desodorantes dão câncer, menos o de babosa. Babosa cura câncer, clareia dente, cura diarréia e hemorróida, trata da digestão e do aparelho urinário, clareia os dentes, é energético, ajuda a melhorar o sono, abre o apetite, fecha o apetite, enfim, era um produto milagroso. A fofa, inclusive, me educou sobre uma tal de "Cleopata" que só usava babosa. Desconheço essa figura histórica. Talvez o Google me ajude. Ai meu Deus. Não aguentava mais ouvir sobre babosa. Daí ela me deu uma olhada "segura" e disse que havia também um gel redutor que era capaz de reduzir entre 5 e 29 centímetros de gordura em uma hora. Foi demais, tive um acesso de riso que nada era capaz de segurar. Acho que então a fofa se tocou, me deu um cartão e me "convidou" a fazer um teste: satisfação garantida ou meu dinheiro de volta. Eu passo ! Essa babosa não me pertence !

Fui à recepção pagar o procedimento. O rapaz me deu o preço: R$ 250. Daí perguntei pelo desconto de 20% nas segundas e terças-feiras. Ele me respondeu que o desconto já estava incluído. Não estava em posição de discutir, mas no táxi a caminho de casa fiz umas contas de cabeça. O "procedimento" teria então custado exatos R$ 312,50, que descontados os 20% resultariam em R$ 250, que foi o que paguei. Bizarro. Parece um número cabalístico.

É isso, trair cabeleireira é muito pior do que trair namorado ou marido. Eticamente pode ser mais leve, mas as consequências podem ser devastadoras...para os cabelos e para os bolsos.

Prometi de pés juntos nunca mais trair Soninha. Rogo pra que ela acredite e me perdoe. E para que eu seja capaz de cumprir minha promessa.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Poesia: Traduzir-se (Ferreira Gullar)

O nosso maior poeta da atualidade: Ferreira Gullar!



TRADUZIR-SE
(Ferreira Gullar) 




Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Poesia: Desconhecido

DESCONHECIDO
(Mateus Almeida Cunha)


Cuidado: não temas o desconhecido.
Ele não tardará a vir.
Para Drummond, a porta cerrada, não abras.
Não cerre os olhos para o medo,
Ele virá.

Cuidado: a canção desolada que toca,
o livro semi-aberto que se oferece,
o controle da TV que se lança nas mãos.
Não ouça, não leia, não Veja.

Cuidado: a voz que se fala,
a voz que se ouve,
a vós, que se cala.
Fala!

domingo, 20 de junho de 2010

Poesia: Contemplação


CONTEMPLAÇÃO
(Mateus Almeida Cunha)


De repente, a contemplação de um mundo estático:
um abismo entre, os os, dois olhos.
Acorda, do alto, a paisagem a lhe observar:
devorar.
Do alto, o chão a lhe seduzir:
argüir.

Da brisa,
as aves a plainar.
Entre dois mundos, o céu e a terra,
Um penhasco:

                s-a-l -----------t-a-r


                                                ou


                                                        c
                                                          a
                                                             i
                                                               r



No instante da queda, uma contemplação:
a vida.
Uma dúvida que não mais lhe pertence.
Os braços, como asas frágeis a se desfazer.
Pular, saltar, plainar, cair.

                                     Cair
   
                                             Cair

Nada mais lhe resta a não ser um corpo que lhe foi.
Não é: fora.
Do chão, as nuvens passam brancas no céu que lhe inspirara.
Sangue.

Crônica: A Taça do Mundo é Nossa?


É uma verdade indiscutível (ou inquestionável) que, ainda que existam torcedores que não assistam a Copa do Mundo, como eu (por não entender nada ou por não gostar) há uma grande vontade que nosso país, como preconiza a tradição, seja o Campeão da Copa. Mas, ainda que não vençamos, somos campeões em diversas outras coisas: desmatamento, desvio de dinheiro público, leptospirose...


Copa do Mundo é uma coisa muito perigosa porque, ainda que exista a cada quatro anos (assim como as Olimpíadas) corresponde a um período que, "coincidentemente", é muito próximo ao período eleitoral (da presidência). Concidência ou apenas uma Teoria Conspiratória? Seria (ou será) mesmo Marina o nosso Obama brasileiro em versão feminina? Restam esperanças, como em toda (boa) campanha à presidência, porque não cansamos de tê-la. Afinal, o que mais nos resta senão a esperança de que tudo vai melhorar? Se, por um lado, o índice de violência (incluindo os assaltos, homicídios, espancamento, pedofilia etc.) está crescendo, por outro ainda ficamos chocados ao passarmos pela rua com nossos carros com ar condicionado e vidro fechado e vermos aquelas criancinhas "feias e sujas" que as mães muito se esforçam para deixá-las assim e facilitar o pedido de esmolas. Isso me lembra Caetano Veloso, na época da música "Tropicália" que escreveu:

"O monumento não tem porta
A entrada de uma rua antiga, estreita e torta
E no joelho uma criança sorridente, feia e morta
Estende a mão"

Caetano parecia, naquela época, já demostrar a sua angústia sobre a exploração desses pais, que nem se importam com os filhos. Eles não se importam mas nós, reles passantes, deveríamos nos importar? Sim. Apesar de tudo somos um povo gentil. 

No fundo, somos complexados e sabemos disso. Temos megalomania. Não basta termos um bom estádio, temos de ter o maior estádio do mundo. Não basta termos um elevador comercial (Elevador Lacerda, em Salvador), temos de ter o maior elevador para fins comerciais do mundo. Temos de ter, inclusive a maior floresta do mundo, a maior bacia hidrográfica do mundo, o maior rio o mundo, a maior biodiversidade do mundo... E também a maior metrópole da América Latina, a cidade mais antiga colonizada da América do Sul e outras coisas mais.

A Copa parece anestesiar tudo. Pior, exarceba um sentimento nacionalista-patriótico que parece não existir nos outros quatro anos que se seguem ou que se entecederam. Quase não se vê, fora dessa época, a venda de bandeirinhas do Brasil para carros, pessoas usando suas camisas verde-e-amarelo em "dias comuns". Essa é uma vantagem que os estadunidenses têm sobre nós: seu sentimento explícito de patriotismo. Basta lembrarmos a segunda parte do Hino Nacional (que a maioria não sabe toda a letra ou, se sabe, não sabe como se portar durante a sua execução, salvas algumas exceções) que geralmente não é tocada na Copa:

"Mas se ergues da justiça a clava forte
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte"

Nem tememos a própria morte? Adoramos tanto assim?

A África possui uma história interessante desde a sua Antiguidade Clássica (Egito), passando pela sua colonização pelos ingleses e franceses. Há também a presença de vultos marcantes como Mandela e outros. Lembremos também que John Ronald Reuel Tolkien, grande escritor de língua inglesa, filólogo, nasceu eu Bloemfontein, na África do Sul. Para os que não se recordam, Tolkien foi um dos precursores da ficção fantástica, com a criação de obras como: O Hobbit, O Senhor dos Anéis, O Silmarillion e outras tantas.

Enfim, "bola na trave não altera o placar". Vamos continuar anestesiados (e extasiados) com a Copa e esqueçamos o aumento do preço da cebola, do tomate, das greves do Jurídico, da movimentação do legislativo e que venham as eleições, quiçá após o Hexa.





sexta-feira, 18 de junho de 2010

Crônica: A Morte Prematura de um Monstro Literário


A MORTE PREMATURA DE UM MONSTRO LITERÁRIO
(Mateus Almeida Cunha)



A morte "prematura” de José Saramago, hoje, é e continuará sendo uma perda inestimável para a humanidade. Se digo que a sua morte foi prematura é porque, apesar de ser um escritor profícuo, ainda muito teríamos a aprender com a suas obras que viriam. Muito mais que escritor, Saramago foi pensador, ensaísta, crítico e, principalmente dono de um espírito criativo único. Suas narrativas longas, textos com excesso ou falta de pontuação "tradicional", o uso do discurso direto confundindo-se ao indireto e a sutiliza de suas opiniões extremamente críticas e perspicazes, eram escritas de forma muito natural.

Foi uma figura atemporal, filho de camponeses, que teve o sobrenome “Saramago” escrito por obra do descuido do escrivão bêbado e que, segundo o próprio escritor, é o único caso relatado na história em que um filho deu origem ao nome do pai, pois quando seu pai descobrira adicionou o sobrenome “Saramago” ao seu nome. Um (grande) homem se foi, um “monstro literário”, mas ficaram as suas ideias reproduzidas em toda a sua fantástica produção bibliográfica e nas suas opiniões muito bem delineadas nas entrevistas, comentários ao público, blog ("O Caderno de Saramago") etc. Quem mais seria capaz de associar alegoricamente uma cegueira branca, semelhante “a um mar de leite”, à condição atual da sociedade? Quem mais teria coragem de, com seu ateísmo explícito, afrontar principalmente a Igreja Católica com as obras O Evangelho Segundo Jesus Cristo e, seu derradeiro livro, Caim?

Saramago disse que, se Adão e Eva foram expulsos do paraíso o culpado foi deus por ter plantado a árvore do fruto proibido ou, mesmo tendo plantado, era sua obrigação ter colocado uma cerca ao seu redor para que Adão e Eva não caíssem na tentação de comer do fruto.

Se a perda de Albert Einstein foi enorme para a Física, ou a de Linus Pauling para a Química ou a de Freud para a Psicologia, a literatura perdeu também um de seus grandes gênios da língua portuguesa e um dos maiores, senão o maior, da atualidade. Certa vez Mário Quintana afirmou “eles passarão / eu passarinho”, demonstrando a sua pseudo-sutileza. O que teria dito Saramago?


Para ele, “As misérias do mundo estão aí, e só há dois modos de reagir diante delas: ou entender que não se tem a culpa e, portanto, encolher os ombros e dizer que não está nas suas mãos remediá-lo — e isto é certo —, ou, melhor, assumir que, ainda quando não está nas nossas mãos resolvê-lo, devemos comportar-nos como se assim fosse”. Precisaríamos todos ficarmos cegos para enxergarmos a realidade da sociedade tal qual ela é? Então, fica-nos a grande idéia: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara". Precisamos atentar para o que vemos!


sexta-feira, 16 de abril de 2010

Divagações: Citando Clarice Lispector (I)

Mais uma vez, concordando com Clarice Lispector:

"Eu me deixo ser!"

Por ora, acho que isso basta!

sábado, 3 de abril de 2010

Ensaio: A Inexistência das Máquinas



Ensaio: A Inexistência das Máquinas
(Mateus Almeida Cunha)



Às vezes, penso em como poderia ser o mundo sem a existência das máquinas. Não máquinas como se costuma pensar nos filmes futuristas, mas máquinas comuns, coisas corriqueiras: computador, telefone, celular, televisão, câmera digital, rádio, automóveis, chuveiro elétrico, máquina de lavar roupas, relógio etc. Isso parece ser inimaginável e, de fato, é. Parece que tudo que poderia ter sido inventado já o foi até o final do século XX e, a partir de agora, só nos resta re-inventar... aperfeiçoar... dar melhor utilização... enfim...

Deve ser assustador se, um dia, ao levantar percebermos que não há mais como saber as horas pelo método "convencional" (ou tradicional: o relógio), pois ele não mais funciona. E aí, adeus compromissos: festas (casamentos, aniversários, batizados), aulas, trabalho, encontros com amigos ou romances. Catástrofe total!

Adeus também notícias pela televisão, rádio, internet... estaríamos ilhados. Destinados à própria morte, já que nem os aparelhos dos hospitais seriam capazes de funcionar. Se alguém adoecesse gravemente? Morte na certa...  E a "cegueira" parcial que haveria? Qual máquina seria capaz de produzir as lentes dos óculos? A visão do/de mundo para grande parte da população mundial estaria fadada a mudar, adaptando-se ao seu novo "foco". Qual foco? A distorção, posto que só ela reinaria. Haveria então uma nova era, talvez já prevista por José Saramago em seu magnífico livro "Ensaio Sobre a Cegueira", onde a população (de uma meneira diferente) teria essa tal  cegueira branca, como se enxergasse um mar de leite... uma brancura leitosa total.

A pobreza reinaria. Quais cofres eletrônicos ou bancos 24 horas funcionariam para que sacássemos o "pão-nosso de cada dia"? Débito em conta? Cartão de crédito? Rá... Isso seria coisa do passado e o que pensamos hoje que faz parte da modernidade ficaria apenas na lembrança de um passado remoto de uma era em que o homem era capaz de dominar as máquinas. Talvez, a parada brusca de todas as máquinas seja/seria a Revolução das Máquinas tão citada em livros e filmes de ficção. Tudo isso que usamos hoje, chamadas de comodidades (ou facilidades) da vida moderna, de nada teria serventia.

Depois de sofrermos todo o processo evolutivo ao longo de milhares de anos, entraríamos num hiato produtivo em que teríamos de nos adaptar a uma nova forma de lidar com a natureza e com o próprio homem. Lembrando que o homem faz parte da natureza, apesar de muitos não se lembrarem ou, muito pior, fazerem questão de esquecer.

Desde que o mundo é mundo sempre houve momentos de crise, seja ela econômica/financeira, cultural (artística, literária etc.), religiosa e outras tantas. Os egípcios foram capazes de construir, com a tecnologia disponível na época, tantos monumentos que até hoje não se tem certeza absoluta de como puderam ser construídos. Existem teorias. Os filósofos gregos da Antigüidade Clássica já supunham que a Terra movia-se em torno do Sol... idéia que depois foi desconstruída na Idade Média e só muito tempo depois, retomada. O politeísmo já tomou parte de tantas culturas (principalmente as antigas) e hoje, na nossa sociedade Ocidental domina a idéia do monoteísmo. Sem querer ofender nenhuma religião, mas trabalhando com fatos, grande parte dos católicos esquece que Jesus (personagem central da Bíblia) era judeu. E óbvio que, quando ele nasceu (segundo a Bíblia) o Cristianismo não poderia existir, já que ele era o Cristo. Portanto, Jesus não era cristão. Os monoteístas também se esquecem que eles são "parcialmente ateus" por crerem em menos deuses do que os politeístas. E os ateus só crêem em um deus a menos que os monoteístas e isso não nos torna (falo aqui como ateu) más pessoas. 

Enfim: máquinas, ausência de máquinas, épocas de crise, religião... tudo parece ter sido dito num "Sábado de Aleluia". 

Sobre as máquinas é importante termos certeza de que agora somos escravos da nossa própria criação. E se achamos que as dominamos é só pensar em viver sem elas... 

domingo, 28 de março de 2010

Poesia: Sobrevivo (Edna Almeida Cunha)

É com muita satisfação (e orgulho) que faço a primeira postagem de um poema inédito, de autoria de minha mãe (Edna), digno de ser publicado. Quando, hoje à noite, ela me mostrou, terminei de lê-lo com os olhos banhados em lágrimas, em meio a um estado de transe. Extasiado! Cada palavra dita carrega outras tantas não-ditas....  malditas. Ele é um soco no estômago! Lindíssimo! 






Sobrevivo
(Edna Almeida Cunha)


Sobrevivo!
Apesar desse vazio
que habita em mim.
Esse silêncio, esse nada
esse espaço oco
que não me abandona...
Sobrevivo!



Além ou aquém
desse abismo
que me separa do resto do mundo;
abismo invisível...
porém intransponível.
Ainda assim
Sobrevivo...



Mesmo com essa falta
constante e insistente,
de alguém ou
será de alguma coisa?


Nesse espaço desocupado,
abandonado, escondido,
perdido, despercebido
desse jeito
Sobrevivo!

domingo, 21 de março de 2010

Divagações: Frases de Impacto (Clarice Lispector)



Há muito a se dizer sobre Clarice Lispector, principalmente que a sua literatura é algo que se sente: ou toca, ou não toca! É preciso lê-la para saber. E, como ela, foram poucos os intelectuais capazes de descrever (com tantos detalhes)  os sentimentos humanos e os conflitos psicológicos. Clarice foi, inclusive, considerada "a" Franz Kafka da língua portuguesa. Nasceu na cidade de Tchetchelnik, na Ucrânia, com a data de nascimento incerta, sendo 10 de dezembro de 1920 a que parece ser mais "correta". Veio com a família para o Brasil muito cedo, quando morou em Recife. Em 1930 perde a mãe.  Alguns anos depois muda-se, com a família, para o Rio de Janeiro. Cursou Direito. Escrevia na sala, no quarto, com a máquina de escrever no colo e as crianças brincando e correndo pela casa, com a empregada cuidando dos afazeres do lar. Nunca se considerou uma escritora, apesar de sabermos que sempre fez esse ofício com maestria... Falecera em 09 de dezembro de 1977,  na véspera de seu 57º aniversário. Seu último livro, publicado em vida foi "A Hora da Estrela", que escreveu em paralelo com "Um Sopro de Vida (Pulsações)". 


  
"Quem não é um acaso na vida?"

"Perder-se também é caminho."

"Com todo perdão da palavra, eu sou um mistério para mim."
 
"Não era à toa que ela entendia os que buscavam caminho. Como buscava arduamente o seu! E como hoje buscava com sofreguidão e aspereza o seu melhor modo de ser, o seu atalho, já que não ousava mais falar em caminho. Agarrava-se ferozmente à procura de um modo de andar, de um passo certo. Mas o atalho com sombras refrescantes e reflexo de luz entre as árvores, o atalho onde ela fosse finalmente ela, isso só em certo momento indeterminado da prece ela sentira. Mas também sabia de uma coisa: quando estivesse mais pronta, passaria de si para os outros, o seu caminho era os outros. Quando pudesse sentir plenamente o outro estaria a salvo e pensaria: eis o meu porto de chegada. Mas antes precisava tocar em si própria, antes precisava tocar no mundo." (Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres)

“Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada nem a ninguém. Nasci de graça. Se no berço experimentei essa fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus ( ... ) Quem sabe se comecei a escrever tão cedo na vida porque, escrevendo, pelo menos eu pertencia um pouco a mim mesma.” (A Descoberta do Mundo)

“Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece.” (A Descoberta do Mundo)

“Senti-me então como se eu fosse um tigre com flecha mortal cravada na carne e que estivesse rondando devagar as pessoas medrosas para descobrir quem teria coragem de aproximar-se e tirar-lhe a dor. E então há a pessoa que sabe que tigre ferido é apenas tão perigoso como criança. E aproximando-se da fera, sem medo de tocá-la, arranca a flecha fincada.” (Água Viva)

“Mas é que também não sei que forma dar ao que me aconteceu. E sem dar uma forma, nada me existe. E – e se a realidade é mesmo que nada existiu?! quem sabe nada me aconteceu? Só posso compreender o que me acontece mas só acontece o que eu compreendo – que sei do resto? o resto não existiu. Quem sabe nada existiu? Quem sabe me aconteceu apenas uma lenta e grande dissolução? E que minha luta contra essa desintegração está sendo esta: a de tentar agora dar-lhe uma forma? Uma forma contorna o caos, uma forma dá construção à substância amorfa – a visão de uma carne infinita é a visão dos loucos, mas se eu cortar a carne em pedaços e distribuí-los pelos dias e pelas fomes – então ela não será mais a perdição e a loucura: será de novo a vida humanizada.” ( A Paixão Segundo G.H.)

quinta-feira, 18 de março de 2010

Ensaio: Sobre os Questionamentos




Ensaio: Sobre os Questionamentos
(Mateus Almeida Cunha)



Chega um momento em que começam os por quês: (a) por que viver?; (b) por que trabalhar?; (c) por que acordar cedo?; (d) por que acordar tarde?; (e) por que visitar a família?; (f) por que? (...)  por que?; (...)  por que? (...)

É graças ao complexo pensamento humano que somos capazes de criar questionamentos, indagações, que na verdade são fruto da própria reflexão que, no fundo, pretendem satisfazer curiosidades primordiais que nunca serãodesvendadas. E, no momento em que começamos a nos questionar sobre as coisas,é sinal de que, no fundo, as coisas não vão nada bem. Preocupante? Talvez. Mas é isso que nos diferencia do resto dos animais: o pensamento! E, mais que isso, saber que sabemos: homo sapiens sapiens.

Lugar-comum? Sim. Mas, mais que isso, organização de ideias que nem sempre são bem organizadas e explicitadas. Chega um momento em que se precisa...  precisa!

Às vezes, a incerteza do futuro causa mais medo que a própria certeza da morte. 

terça-feira, 16 de março de 2010

Devaneios: Solidão I



DEVANEIOS: SOLIDÃO I


É mesmo uma verdade que, no fundo, somos um pouco sós e um pouco tristes. Isso é um fato! Pensar, é um fato. Sentir é um ato. E hoje apenas sei que nada sei...

A noite é longa e amanhã será um novo dia e, segundo Peninha, "certamente eu vou ser mais feliz". E por falar nisso, "quando a poesia realmente fez SENTIDO em minha vida"...

Poesia: O Haver (Vinícius de Moraes)


O Haver
(Vinícius de Moraes)



Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai! eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo que existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de sua inútil poesia e de sua força inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será e virá a ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante.

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de uma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do grande medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada.

sábado, 6 de março de 2010

Poesia: Sentido(s)


SENTIDO(S)
(Mateus Almeida Cunha)
[para minha vó, Eunice, após 01 ano sem sua presença, em 06/03/2010 ]


Ai desses olhos que não podem enxergar
essa sua imagem marcada em mim,
como um sulco esculpido nas lembranças
cada vez mais distantes, ausentes.

Ai desses ouvidos moucos,
privados da sua voz serena
a entoar canções infantis
que nunca mais ouvirão.

Ai dessa boca sedenta
do sabor das comidas
caseiras, compotas e geléias
feitas com tanto amor.

Ai desse sentido tátil
que não sente sua pele,
seus beijos, seus braços, seus abraços
num embalo de acalanto.

Ai desse ar que não carrega consigo
seu perfume, cheiro de neném
a impregnar o quarto, a casa, a atmosfera
com a sua doce presença.

Ai desse coração dilacerado,
ao perceber a a falta que faz.
E como um sexto sentido,
hoje estar sentido pela Sua Ausência.

Poesia: Saudade ou Um Último Adeus





SAUDADE OU UM ÚLTIMO ADEUS
(Mateus Almeida Cunha)





Quem me entoou cantigas populares, crendices
Quem me contou histórias sobre a Ponta e o Cairu
Quem me fazia deitar ao seu lado, à noite, para rir sobre qualquer coisa
Quem um dia chamou meu sobrinho de “Baé, meu porquinho”
Quem me chamou de “Patinho”, por petiscar o dia inteiro

Não parece ser a mesma voz que ouço na memória tão recente,
Arranhada, sôfrega, latejando controladas emoções
Não parece ser a mesma voz quase inaudível do último dia em que tentamos conversar
Uma voz que balbuciava nomes, ao perguntar-me onde estavam os outros
Quais outros? Eles viriam?
Eles foram?
Mas você se foi...

Quem passeava lentamente comigo durante as tardes
E me fazia esperar seus passos lentos e cadenciados
Virem do meu quarto, calçados com uma pantufa
Gritando: “estou pronta, Seu Lobo!”
Esperando um beijo terno e um abraço confortável,
Além de um “boa noite e eu te amo! Durma bem e até amanhã”
Com medo de não haver amanhã...

Não sabe que esse momento se extinguiu no tempo.
E sufocam agora, nos lençóis da memória...

Aquelas mãos ressequidas pelo tempo, longo e cruel da labuta
Que tanto me acariciaram e acariciei,
Foram as mesmas mãos que se agarraram às minhas para não me deixar partir
Mas, parti daquele hospital. Perdoe-me, pois o tempo findou-me.
Com lágrimas nos olhos parti, com a certeza de que seriam as últimas vezes
Que meus olhos veriam-lhe assim: deitada, triste e apática
Delicada!
E fez-me estremecer o corpo

Uma dor dilacerou-me a alma
Ao ouvir nos corredores gélidos, os suspiros vãos...

É preciso estar atento para os que se vão,
É preciso preparar-se para os que partem,
Porque eles se vão
E seus passos se perdem nos corredores das trevas
Ocultos, silenciosos, desorientam-se e não voltam jamais
Ouço na madrugada passos que se perdem ocultos na memória...

Porque os que se vão somos nós
Nossos filhos, nossos pais, nossos amigos
É preciso sepultar essa dor que nasce tímida,
E se espalha por todo o pensamento.
Conseguiremos?
Vai ser difícil sem você...

Porque um século, é tempo demais para a nossa ínfima vida
E você não conseguiu suportá-lo.
Um fardo muito grande a se carregar.
Mas, você foi forte: você lutou
Mais que isso? Seria apenas uma agressão ao próprio corpo.

O seu espaço no meu armário continua vago para as suas coisas,
Que não sei se virão...

E agora, extasiado observo-a em seu último leito, petrificada...
Das flores amarelas: suas preferidas
Das brancas, apenas (des)colorem seu rosto mórbido e empalidecido
E todas cobrem seu corpo que jaz tão sereno
E finda uma existência tão bonita e alegre,
Matriarcal.
Descanse, repouse em paz!

Mas, é isso: da vida, o que esperar?
Da morte? Esperamos imensamente!

[10/03/2009 - para minha avó, Eunice que falecera em 06/03/2009]