sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Poesia: Autoconstrução

AUTOCONSTRUÇÃO
[Mateus Almeida Cunha]


Construir-se:
transmutar-se,
permitir-se,
Ousar-se.

Construir-se:
modificar-se,
deixar-se,
Sentir-se.

Construir-se:
defender-se,
preservar-se,
Ruir-se.

Construir-se:
aceitar-se,
duvidar-se,
Fluir-se.

Construir-se:
mastigar-se,
deglutir-se,
Digerir-se

Autoexilar-se em introspecções vãs
ou autossustentar-se em idéias sãs.
Deixar-se ser.
Enfim,
ser.


Poesia: Nada se Sabe

Solidão III
(Mateus Almeida Cunha)


Não há mais nada além de lágrimas e solidão
O tormento dos que tentaram esquecer da dor

Não há mais tanta lágrima, solidão...
O tormento dos que haviam esquecido da dor

Quem sabe, o medo deixe de existir
Quem saberá?
Quem sabe, a angústia se finde
Quem saberá?
Quem sabe, tornemo-nos mais frios
Quem saberá?
Quem sabe, queiramos apenas lutar
Quem saberá?
Quem sabe, brindemos a vida
Quem saberá?
Quem sabe, sonhemos
Quem saberá?
Quem sabe, recomecemos
Quem saberá?
Quem sabe, aquilo, de dentro, se extinga
Quem saberá?

Quem quererá?
Quem ficará?
Quem mudará?
Quem aceitará?
Quem acatará?
Quem chorará?
Quem findará?
Quem fincará?
Quem brilhará?
Quem adotará?

Nada se sabe
Nada se saberá
Nunca se soube
Nunca se saberá

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Divagações: Vida Reticente...

DIVAGAÇÕES: VIDA RETICENTE...
[Mateus Almeida Cunha]


É... no fundo sou mesmo reticências...

Gostaria de ser um ponto final, definido. Uma afirmação. Ou uma conclusão.

Talvez uma vírgula, uma explicação, um opinição, uma afirmação.

Já sei! Uma exclamação! Aí sim seria bom! Bom mesmo!

Seria então uma interrogação (de mim mesmo)? Teria outra vida? Quereria? Gostaria? Amaria?

Nada disso... sou reticências... não completo... talvez explique, não sei... é... talvez seja isso mesmo: reticências... continuo sendo... indo... fazendo... enfim... continuo...

#reflexaodanoite...
#filosofianoturna...
#existencialismo...
#reticente...
#...
...
 
Obs.: postado inicialmente via Facebook

domingo, 11 de setembro de 2011

Ensaio: Imortalidade

Não gostei do final, mas vai assim mesmo...
Mateus
________________________________


ENSAIO SOBRE A IMORTALIDADE
[Mateus Almeida Cunha]



- Serão todos imortais.

Foi tudo o que se ouviu, há muito tempo, em algum lugar isolado do planeta. Uma voz vinda do céu, quiçá de algum deus ou deuses ou uma brincadeira de algum cientista do Governo local que, há anos vinha tentando imortalizar seus cidadãos secretamente, por meio de substâncias químicas injetadas em seus corpos quando nasciam: as vacinas. E aquela voz soou com força de Lei, como Decreto ou algo assim. E assim ficou definido: ninguém morrerá. E todos acreditaram. Não se sabe exatamente a data precisa dessa notícia, mas sabe-se apenas que foi numa sexta-feira, pois sexta-feira sempre se é um bom dia para boas notícias.

Sim, ninguém mais morreria a partir daquele instante. A partir de então, tudo ficou mais claro e mais interessante. Não precisariam se preocupar com viroses e abandonaram os cuidados necessários para evitar as suas transmissões; e largaram os remédios de uso contínuo para as doenças crônicas; e o sexo inseguro ficou liberado; e inexistiu a higiene corporal (lavagem de mãos e face e boca e de todo o resto do corpo); e a população, como num ato de revolta, lançou seus antibióticos em fontes e poços e rios e lagos e mares, já que não haveria mais infecções bacterianas.

Era certo que agora estavam imortalizados. Poderiam não fazer nada por todo o dia e em todos os dias, pois nada mais seria necessário: apenas viver-se-ia. E isso era bom. Colocaram um “velho calção de banho”, pois tinham “o dia pra vadiar, um mar que não tem tamanho” e, para completar, ainda havia um “arco-íris no ar” e naqueles “espaços serenos, sem ontem nem amanhã”, argumentaram “com doçura” e perceberam que “sentir a Terra rodar é bom”.

E aumentaram (os que consumiam) o uso de drogas ilícitas e de álcool ou começaram a fazê-lo (os que não consumiam); e abandonaram seus trabalhos porque não precisariam mais de dinheiro para comprar alimento; e fizeram muito sexo sem limites e sem responsabilidade; e viveram... e fizeram... e compraram... e usaram... e não fizeram... e não compraram... e não se cuidaram, afinal, imortalidade é imortalidade.

Mas aquilo não era uma verdade plena. Sim, seriam todos imortais, mas não fisicamente. E isso não foi decifrado em sua essência. Estariam vivos em ações, em emoções e em lembranças, mas isso não foi suficientemente entendido pela população, que estava ávida por vida (física) eterna. E começaram a adoecer e a morrer rapidamente, de forma que só sobrou uma pequena parcela da população. E essa pequena parcela guardou com muita dor aqueles momentos intensos que haviam vivido, resultando em mortes acidentais, disseminação de doenças, partos prematuros e tantas outras coisas que não deveriam ser lembradas, pois não poderiam ter acontecido. Mas aconteceram. E foi com muita dor que, de certa forma, aqueles que se foram ficaram imortalizados na memória dos que viveram sem excessos.   


[inspirado em um livro de José Saramago que iniciei a leitura há alguns anos (e não finalizei, tampouco lembro o nome), na música de Toquinho e Vinícius, Tarde em Itapoã e em loucuras momentâneas]



segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Poesia de Cordel: Epopéia Universal



Iniciei essa poesia de cordel há alguns anos e a esqueci completamente e nunca mais retomei por conta das atribuições do dia-a-dia (ou mesmo por negligência). Fuçando outros arquivos no computador, achei. Espero um dia terminá-la, mas é tão audaciosa que, da formação do Universo até chegar aos dias atuais ainda faltam milhares de anos e centenas de estrofes com milhares de versos.

Tomara que ainda tenha fôlego pra retomar...

Mateus




EPOPÉIA UNIVERSAL
[Mateus Almeida Cunha]









CANTO I – DO SURGIMENTO DO UNIVERSO


Sob o silêncio da escuridão e do vazio
Uma enorme massa densa expandiu
E assim, o Universo então surgiu

Como numa dança, o espaço se definiu
E desde então, o tempo, estático, existiu
E o tempo e espaço se uniram por um fio


O ermo, por muitos anos permaneceu
Nem mesmo uma estrela apareceu
Como um lugar que alguém esqueceu

Só mesmo o raio do Universo cresceu
E se expandiu em meio a tanto breu
Quiçá, uma luz um dia se acendeu


Ao acaso, de forma tão excepcional
Por um longo tempo, assim descomunal
Começou a moldar-se a sua forma atual

No negrume do espaço sideral
Uma galáxia, a Via Láctea, surgiu fenomenal
Em sua forma de poeira em espiral


E assim, carregando em seu ventre estelar
Oito planetas ao Astro-rei a acompanhar
E a Terra com uma lua prata a circundar

Nas explosões solares, toda a energia a irradiar
Percorrendo o espaço, nos confins do Sistema Solar
Para, na Terra, a sua luz visível espraiar


CANTO II – DA FORMAÇÃO DA TERRA


Os átomos, em ideais combinações
Formaram as moléculas através de ligações
Cuja química e física nem faziam previsões

Que, aos poucos, foram grandes alterações
Responsáveis por diversas interações
Causadoras até mesmo de várias sensações


Os vulcões logo foram se encarregando
Das primeiras rochas irem moldando
Os grandes morros, em cordilheiras de alinhando

As erupções foram-se acabando
As rochas, em pedaços, se fragmentando
E o solo, então, se formando


Certos gases, no início se agruparam
E em condições ideais, a água formaram
Que em chuvas torrenciais os solos alagaram

Lavaram a terra, e seus sais carrearam
Até as depressões, os oceanos se formaram
E os primeiros seres, no mar habitaram


Houve um fluido, a “sopa primordial”
Que carregou a vida em sua forma inicial
Cuja circunstância parecera muito especial

Para dar início assim à vida natural
Que hoje vê-se em sua forma habitual
Em meio a tanta criação intelectual

 

CANTO III - DOS SERES VIVOS


Os vírus, com sua composição tão inusitada
Podem permanecer por longo período de forma estagnada
Ou espalharem-se celeremente de forma descontrolada

A célula de outros será por eles roubada
Para em seu núcleo haver uma mistura integrada
E sua reprodução, então ser realizada


Outros seres, assim como a bactéria
Podem emergir de forma deletéria
Carregada, em outro ser, por sua artéria

Para o enfermo, sua vida uma miséria
Mas há também a decomposição da matéria
Como função da saprófita bactéria


Os peixes, em grupos, sempre em natação
Possuem brânquias, decerto pra respiração
Fazem dos recifes sua habitação

Aos cardumes saem em competição
E se, por descuido, não há atenção
Há sempre um predador, e os faz refeição


Entre a terra e a água, numa vida dividida
Os anfíbios, uma fauna escolhida:
o elo entre os peixes e répteis, refletida

Os girinos com sua cauda encolhida,
E os sapos a pular de forma desmedida
A coaxar nos brejos ou na lagoa escondida


Com a aparência sempre a amedrontar
Pecilotérmicos, os répteis têm o Sol a lhes esquentar
Em copas de árvores, areias ou lagos a nadar

Alguns, com patas firmes a caminhar
Outros, sem patas, fadados a rastejar
Ou os carnívoros, nadando sempre a assustar


Sem ossos, possuem o tamanho diminuto
Os insetos são animais de grupo astuto
Em sociedades, as formigas possuem seu estatuto

As aranhas constroem suas teias em meio minuto,
Para a sua presa, atacar de jeito arguto
Dos casulos, saem as borboletas como um fruto


Com as asas se impondo ao céu a voar,
Penas coloridas, para o corpo enfeitar
E o bico, da comida a se alimentar

Algumas aves insistem em nadar
Mas não podem ao mergulho arriscar,
Com o fato de, talvez se afogar


Dotados de leite para a cria fornecer
Os mamíferos são fáceis de entender
Podem ter patas para, na terra correr

Asas para, voando, a noite percorrer
Ou mergulhando a respiração prender
São versáteis para a presa entreter


CANTO IV – DA EVOLUÇÃO DO HOMEM


Dos primatas houve grande evolução
Quando o homem pôs em si a indagação
Que o conhecimento é o artifício da criação

E pôs-se, do caminhar quadrúpede, a abolição
Iniciando a sua era de destruição:
Dos recursos naturais, a degradação


Nos primórdios havia mesmo o nomadismo
Quando havia então, o predatismo
Era o início do seu especismo

Em certas tribos, o canibalismo
Que i’nda se sustenta como vandalismo
Ou talvez um fatalismo


E pôs-se ao fogo ter dominação
E transformou as grutas em habitação
Onde era mais fácil a proteção

Havia de aumentar sua população
Para a sua espécie ter dominação
Sobre os outros seres, a escravidão


Com algumas habilidades, pôs-se em alguns lugares a quedar
De lascas de pedras e madeiras, os instrumentos a criar
Por certo que isso, em muito na vida iria facilitar

E seu meio, em muito já estava a transformar
Com as primeiras árvores a cultivar
De seus frutos poder-se-ia alimentar


CANTO V – DA ORGANIZAÇÃO PRIMÁRIA


Para um líder possuir sua ascensão
Era necessário o artifício da comunicação
Como uma primeira ferramenta da corrupção

Decerto que os bens começaram a ter distinção
E os clãs de digladiavam em competição
Disputando territórios, poder e principalmente atenção


Para demonstrar quaisquer habilidades,
Haviam-se de construir as primeiras cidades
Ainda que as residências tomassem certas liberdades

E se organizavam, cada vez mais, em sociedades
E a matemática urgia como uma das necessidades
Sem as teorias que impunham as suas veracidades


Os continentes, por ora se dividiam
Em povos que, entre si, competiam
Em línguas que se desconheciam

As atitudes brutais assim surgiam
Onde outrora inexistiam
E suas idéias e ideais não confluíam


CANTO VI – DAS CIVILIZAÇÕES ANTIGAS


Dos vestígios das antigas civilizações,
Quiçá nunca se saberão suas limitações
Outras tantas com crédulas religiões

Esquecidas, pouco mencionadas em canções
Como as históricas grandes navegações,
Nos mares, desaparecidas suas embarcações


No Nordeste da África, uma grande cultura emergiu
Às margens do Rio Nilo uma cidade se construiu
Em região desértica, abundante chuva por vezes caiu

Muito se beneficiaram do regime de cheia do Rio,
com depósitos de humos, na estreita margem surgiu
Em seu politeísmo, nenhum deus o Egito omitiu


Menés, seu primeiro faraó concentrava todo o poder
Como forma da economia servil se desenvolver
E seus escravos, sem qualquer tipo de lazer


(...)


(Incompleto. Um dia ele será finalizado. Espero...)

Poesia: Paixão



Paixão
[Mateus Almeida Cunha]



Entre dois mundos, um muro
e o silêncio e nos calar.

Numa súbita ausência a fraquejar
Como uma pétala, no ar, repousar.

Como o silêncio mudo que dói
Como o silêncio profano, corrói.

Entre tanta angústia,
Entre tanta audácia,
Entre tantos carinhos,
Entre tantos, sozinhos.

Entre dois muros, um mundo
E o silêncio a nos incitar.

Num súbito mistério a se mostrar,
Como numa folha a, no ar, se evolar

Entre tantos anos,
Entre tantos, vamos
Entre tantos olhares,
Entre tantos sonhares,

Apenas esse seu olhar
e esse meu sonhar.
Apenas esse seu gostar
e esse meu amar.

Eternamente a me devorar

domingo, 15 de maio de 2011

Ensaio: A Difícil Arte de Ser

A Difícil Arte de Ser
Mateus Almeida Cunha



Como poder ser o que se quer, quando esperam algo (a) mais? Como decidir-se a ser o que se quer ser, quando há uma expectativa incisiva sobre a sua figura? Talvez o próprio fato de simplesmente ser: sem censuras. Dificuldades cotidianas que constantemente passamos e/ou somos postos em prova (em prova ou sumariamente reprovados?)...

Portanto, a cada (vão) instante, tenho a certeza de que as pessoas diferentes não se sentem bem num mundo onde, cada vez mais, obrigam-nos a tornarmo-nos iguais. É como se nosso corpo abrigasse um ser que, por ora, não fosse um ser. Ou melhor, não fosse: ser. A sociedade, a cada dia, tenta nos moldar a padrões sociocomportamentais arbitrariamente pré-estabelecidos. Sim: arbitrariamente! E quando nos afastamos (ou quando tentamos nos afastar desses dogmas (sic!) socioculturais, somos tidos como loucos ou, pior, excêntricos.

Então, como ser? É preciso mudar. Lembro dos versos impactantes de Ferreira Gullar:


"A vida muda como a cor dos frutos lentamente e para sempre
A vida muda como a flor em fruto velozmente"


Portanto, é preciso ser breve nas decisões. É preciso ser breve nas mudanças. É preciso correr riscos. É premente/urgente e necessária a mudança. De forma (bastante) piegas, é preciso que a lagarta, com muito sofrimento, se metamorfoseie (sic!) para transformar-se em borbolela. Ela virou outra. Ela ganhou sua liberdade de voar (literalmente, mas em sua essência metafórica) para ser o que foi fadada a ser: borboleta. A lagarta foi apenas uma passagem necessária em sua breve vida. Em alguns momentos precisamos rastejar. Em alguns momentos não podemos voar. Mas há um dia em que, trancando-se em seu próprio mundo (nosso casulo) e observando-se mais que a tudo e a todos, esquecendo o mundo externo, apesar dos acontecimentos que não deixam de ocorrer, sentimo-nos. Sentimo-nos. Nos sentimos em nosso próprio corpo. O corpo, enquanto morada do ser que querem que se seja ou apenas do que se é. O corpo que se é! Antes, não fosse... Mas há um (difícil) momento em que temos de optar entre continuar como uma lagarta rastejante ou voar como borboletas arriscando-se ao perigo da queda. Agora, prefiro voar, apesar da incerteza dos ventos...

Poesia: Entretanto(s)

Entretanto(s)
Mateus Almeida Cunha


Entre tantos começares,
entre tantos pesares,
entre tantos gostares,
entre tantos estares,
entre tantos restares,
entre tantos morares,

Entre tantos, tantos...
tantos! Ficares?

Ser, ficar, fincar.
Estar, fugir, soltar.

Entretantos seres, ser.
Entretanto, ser.
Isso (me) basta.
Isso (não) basta.
Isso
Basta
Ser

segunda-feira, 14 de março de 2011

Poesia: A Silenciosa Valsa dos Apaixonados

A Silenciosa Valsa dos Apaixonados
Mateus Almeida Cunha




Como se fosse o último suspiro,
a única parte capaz de completar
o vazio que carrego em mim,
em mil pedaços, ai de mim.

A cada dia que (nos) passa,
amando-nos mais e mais, deliro.
Como se fôssemos devorarmo-nos
terna e silenciosamente: eternamente.

Nossos passos cadenciam-se
numa silenciosa valsa que, aos poucos,
vai-e-vem num misterioso passo
vagaroso e contínuo a nos amedrontar.

Onde, juntos
caminhamos em nossas transformações,
destinamos nossa trilha
e, no silêncio, nos amamos.

Onde, juntos
transformamos nossos caminhos,
trilhamos nossos destinos
e amamo-nos em silêncio.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Divagações: Nada dura para sempre

Divagação
Mateus Almeida Cunha


Nada dura para sempre. Nada durará. Mas fica a certeza de aproveitar enquanto há tempo. Enquanto nos resta tempo, vontade e coragem.

terça-feira, 8 de março de 2011

Divagações: Inteligência e Solidão

Inteligência e Solidão
Nuno Lobo Antunes


É duro, mas é a mais pura verdade:



"O que nunca ninguém diz, porventura com medo de parecer vaidoso, é que a inteligência tem um preço: a solidão."

[Nuno Lobo Antunes]



Divagações: Plenitude


Plenitude
Mateus Almeida Cunha



Percebi que quando conseguimos passar o dia inteiro, do acordar até a hora de dormir, sem fazer absolutamente nada é porque atingimos a plenitude. Isso indica que estamos satisfeitos (ou ao menos conformados) com o mundo e realizados pelo fato de sermos "eu". Ser feliz pelo que se é e não pelo que os outros gostariam que fôssemos. Hoje não fiz nada: dia maravilhoso! Que venham mais...

terça-feira, 1 de março de 2011

Ensaio: Surto Psicótico



Ensaio: Surto Psicótico
Mateus Almeida Cunha



Náuseas. Além dos fatores físicos, limitadores na sua própria existência, havia uma tremenda vontade de vomitar a se próprio, de forma verborrágica e explosiva. Como um grito de socorro: um grito de independência. A plenitude da liberdade explícita. Por que o óbvio é óbvio, mas pouco se sabe ou pouco se quer saber. E, nesse momento, o vômito físico lhe surge como alternativa expressiva do próprio corpo que não se consegue libertar. Um grito no ar.

Duas da madrugada. Acorda como se houvesse dormido por toda a noite, com a sensação de cansaço físico, mas sem sono. Abre os olhos e uma surpresa: tontura, vertigens... Fecha-os novamente e suas próprias pálpebras parecem movimentar-se como círculos de um inferno dantesco que lhe faz pensar que, enfim, a loucura havia-lhe chegado. Abre os olhos novamente, enquanto passa a mão no rosto. Mal consegue coçar os olhos: suas mãos tremem, seus braços tremem e sua coordenação motora está comprometida. Dobra os joelhos para levantar as pernas que tremem como dum cansaço físico do próprio corpo que carrega. Um grande fardo a (se) suportar.

Duas e vinte. Agora lhe vem o medo de levantar, o medo de ter acordado, o medo de não conseguir dormir, o medo de não se curar, o medo da vertigem não passar. O coração começa a descompassar-se numa terrível taquicardia. Parece-lhe que seu próprio corpo sairá do corpo, como que expulso de si próprio. Vem-lhe então o súbito pensamento de que tudo aquilo não passa de um efeito psicológico. Tenta convencer-se disso, mas não há convencimento. Levanta e vai até a cozinha buscar um copo d’água. O caminho é cruel a o corredor torna-se estreito demais para a passagem. Esbarra-se nas paredes e se segura para não cair: medo.

Volta para o quarto com medo da morte, mas morte não há. Só gostaria de dormir, mas sono não há. Suores, vertigens, alucinações, tremores, temores e náuseas lhe acompanham pelas próximas três horas no silêncio frio da madrugada enquanto lembra-se do maldito remédio tomado no início da noite. Enfim, consegue dormir. Ao acordar, duas horas depois, os tremores corporais ainda se arrastam pela manhã. Mas a náusea (talvez de si mesmo) ainda lhe acompanha ao longo dos dias, até que consiga vomitar o próprio corpo numa expressão própria indizível.



domingo, 20 de fevereiro de 2011

Poesia - Sobre a Solidão II

Sobre a Solidão II
(Mateus Almeida Cunha)


Solidão :
É o pedaço de si que lhe falta e mais lhe dói
É um pedaço que, inexistente, corrói.

É estar, em parte, incompleto
É não sentir-se, em si, repleto.

É perder-se em meio a tantos
É perder-se em seus cantos.

É perder-se em emoções,
É um abismo de sensações.

É sentir, no fundo, algo a lhe dilacerar,
É sentir, lá dentro, espedaçar.

É não encontrar sua salvação,
É, na verdade, sofrer em vão.

É calar-se, na hora do grito,
É não lhe ser suficente,
É desfazer-se
em si.

Poesia - Sobre a Solidão I

Sobre a Solidão I
(Mateus Almeida Cunha)


Solidão:
uma cacto que brota do vazio,
em meio a seu deserto de si.

Em meio a tantos outros,
entre flores, rebenta.

Seria uma flor a se esconder
entre os espinhos?

Mesmo entre tantos outros,
definha, sofre, sente.

Defende-se, refém de si:
angústia da sua solidão.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Conto: Os Três Amantes

Os Três Amantes
(Mateus Almeida Cunha)


Quando se fala (e se pensa) em amor é inevitável deixar de associar a cena da paixão a algum casalzinho jovem que, entre tantos outros, se abraçam, se beijam e se amam avidamente, com o desejo de se devorarem. Pouco importa quem sejam ou onde estejam. Aqueles dois que há tanto se conheciam, desde cedo, colegas de classe, amigos íntimos...

Quando crianças, nunca houve beijos, ou mãos a se tocar vagarosamente, posto que a timidez não permitia. E não era de se estranhar que, entre tantos meninos e meninas na escola, nada havia acontecido durante muito tempo. E, quando o sinal soava, ao Sol do meio-dia, todas aquelas crianças corriam loucamente (e destrambelhadamente) pelos estreitos corredores. Não pareciam nem um pouco diferentes do comportamento animal, muito próximo das manadas. As mochilas a voar pelos corredores, arremessadas ao chão, às paredes, ao teto, aos outros colegas... o tumulto histérico do corre-corre para ver quem sairia primeiro e seria o campeão do dia, os empurrões e nenhuma preocupação a lhes perturbar. Assim foi a infância. 

A adolescência chegou e tudo começou a mudar. Sim, aqueles olhares eram mais penetrantes e flertivos entre ele e ela, as conversas eram mais demoradas e não havia mais corre-corre (pelo menos entre os da sua idade) no término das aulas. Começavam então a arranjar motivos para se tocar, de forma discreta, já que seu próprio corpo não mais lhes satisfazia. E sabiam que o seu prazer, refletido no desejo, só haveria de saciar-se completamente com o outro corpo: a descoberta do próprio corpo, no outro corpo.

A descoberta do próprio corpo com outro corpo, parecia-lhes cada vez mais, em segredo, ser uma penitência nos seus dias. Ah, era cada vez, secretamente, sede da própria sede. Conversar, rir, passear, não lhes bastava mais: era preciso experimentar. E mesmo sem dizer palavras, sabiam que se amavam e queriam satisfazer-se plenamente, provando do fluido responsável pela digestão, que molhava os lábios. Era preciso deixar-se sucumbir ao fato de que não se pode viver sem amar e seus corpos, em formas atraentemente definidas lhes despertavam o erotismo.

E como uma árvore a se desenvolver, cujas flores já anunciavam a safra de frutas que viriam, resolveram provar do fruto. Talvez o fruto proibido em sua idade quase adulta. Estavam a sós e conversavam sobre tudo (e nada) de uma só vez, numa verborragia inexpressível. De repente, como numa música erudita que pausa no instante crucial, não havia mais o que dizer, pois tudo já havia sido dito: o não-dito. Mal dito. Maldito.

Se olharam... entreolharam... sorriram timidamente... e disfarçaram o olhar. Era inevitável! Seus olhos se procuraram em olhares introspectivos, dilacerantes: de-vo-ra-do-res. A face não mais lhes transmitia o sorriso, mas um ar sério e penetrante como a própria treva a emanar uma luz própria que surgia. O silêncio entre o som e o não-som. A dúvida entre a verdade que se mostrava explícita, desnudada, cara a cara.

O que fazer? O que fazer? O que... fazer. Ah, sim, não havia mais ninguém a lhes observar e a lhes censurar. Poderiam fazer qualquer coisa, mas não estavam certos, apesar do amor a lhes seduzir. Na parede, a continuação dos segundos que passavam no relógio que insistia em emitir leves estalidos, obra duma madeira velha numa engenhoca mecânica com pouca manutenção. Tic-tac. O tempo passava, mas seus corações, em fúria, pareciam funcionar por toda a eternidade. A seriedade expressa em suas faces rubras se transformava lentamente em... em... em quê? Não saberia dizer o que é que ocorre nessas horas.

Tic-tac. Os corpos começaram a se debruçar, como num magnetismo atrativo a lhes trazer para mais perto. Tic-tac. O relógio não contava mais as horas: seu tempo era etéreo. Iam debruçando-se, se aproximando inteiramente: era o que queriam. Era o que queriam? Tic-tac. Parecia não findar. As faces a se inclinar, num sincronismo perfeito, não ensaiado, a se aproximar mais e mais. estavam sedentos. Transpiravam. Os lábios se tocaram, a excitação máxima começou a estabilizar-se e agora parecia ser mais fácil que antes.

Tic-tac. As mãos a se encontrarem, ainda perdidas, nas outras mãos, nas outras costas e pescoços e braços e coxas e mãos novamente a deslizarem sem pudor no que, de fato, não lhes pertencia. Os corpos a se encostarem de verdade, a sentir o calor do outro a lhe estremecer. A respiração forte. Os lábios que não paravam por um segundo sequer, há anos desencontrados... E por quê, se era o que queriam? 

Tique-taque: o relógio era mais lento, não emitia mais o mesmo som. Eles não percebiam, mas sentiam que o tempo agora era a favor da sua vontade. Não foi falado mais nada: sabiam o que queriam. O tempo estava a lhes pertencer: tique-taque. Os dois amantes. Tique-taque. Estavam sedentos do sabor que nunca houvera sido degustado. A própria carne a roçar a outra carne e vice-versa. As mãos, despudoradas, a ajudar a lhes despir. Tique-taque. Um corpo contra o outro corpo, os dois corpos nus, os dois amantes em um. E o tempo, a lhes amar como um terceiro amante a não permitir que aquilo findasse.






domingo, 16 de janeiro de 2011

Ensaio: A Dança do Acasalamento no Século XXI - Horácio A.E.

Me agradou muito receber esse texto, na verdade um ensaio, de um(a) conhecido(a) que não gostaria de ser identificado(a). Concordo plenamente com o texto. Há algumas palavras que talvez sejam inadequadas para a publicação (pelo menos eu creio que não as escreveria em sã consciência), mas isso não importa. O que importa é o conteúdo.





A Dança do Acasalamento no Século XXI
(Horácio A.E.)


Todos os animais acasalam. Os humanos são animais. Partindo-se de um raciocínio dedutivo, logo, acasalamos também. Entretanto, alguns animais (irracionais) procedem a uma dança de acasalamento para chamar a sua parceira (ou o seu parceiro) para a atividade sexual. E isso não difere do que é realizado no nosso meio, principalmente entre os jovens (que se encontram no período fértil e no auge da virilidade).

O que fazem os jovens antes de sair de casa para paquerar? Tomam banho, arrumam-se, maqueiam-se, colocam um bom perfume e saem cheios de vontade para a night pra ver o que é que tá rolando. Chegando na boate (ou no barzinho), encontram os amigos... os amigos dos amigos... as amigas... as amigas das amigas... alguns conhecidos "de vista"... fazem novos contatos... Olham, flertam, bebem, dançam. É como se a bebida fosse, de alguma forma, um símbolo da juventude e do ápice de "estou gostando daqui". Como se aquilo fosse um prolongamento da casa.

Em nada, ou em muito pouco, difere do resto do mundo animal. Os homens ficam no canto, aos poucos mostrando o seu charme (depois de algumas doses leves de álcool, para socializar) para as mulheres que, como se não quisessem, procuram escolher um parceiro que possivelmente lhe proporcionará um bom prazer carnal (ainda que o sexo não se efetive, mas os preliminares contam!).   

Por que, apesar de um provável bom pai, não dar a chance para aquele lunático nerd esquisitão magricela? Porque ele não serve para lhes saciar a vontade. Por isso, escolhem aqueles que exalam mais hormônios, com mais cara de machos, prontos para investir em sua presa. Eles foram mais treinados, eles sabem lhes satisfazer.

O mesmo ocorre com os homens. Por que não escolher aquela mulher tímida, escondida entre suas duas gostosas (e peitudas) amigas? Porque ela não teve a capacidade de mostrar-se como fêmea, como uma provável pervertida sexual a lhes satisfazer completamente até levá-los ao delírio.

Até mesmo as putas (ou melhor, profissionais do sexo) possuem toda a sua malícia do acasalamento. E essas putas oferecem seus corpos e esfregam-se nos machos potenciais. Não pelo seu prazer. Isso não. Mas por fazê-los enlouquecer e querer mais e mais e se tornarem escravos do seu corpo, ainda que para isso tenham de pagar.

Os adolescentes, rapazes, como verdadeiros pavões, estufam os peitos, colocam um creme ou gel no cabelo, uma camisa coladinha onde se possam ver seus músculos (recém-adquiridos na academia do prédio, ao malhar com os amigos) e saem. Vão, aos poucos, nas festas que lhes são permitidas, chegando ao centro. Começam a insinuar uma dança, lançam olhares, oferecem bebidas (que não deveriam estar bebendo) e partem também para o ataque. Aquele que dança melhor, pode ser um potencial alvo para as moças que os observam.

E assim, aos poucos, percebemos que não somos tão diferentes dos demais animais quanto acreditávamos. A dança do acasalamento ainda impera no século XXI.