domingo, 20 de maio de 2012

Poesia: Sobre a Saudade X

Sobre a Saudade X
[Mateus Almeida Cunha]



O Sol já se pôs meu bem

        E você não vem...

É tão tarde!

        E amanhã também,

você não vem?

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Poesia: Sobre a Saudade VI



Sobre a Saudade VI
[Mateus Almeida Cunha]


Saudade, saudade,
uma ausência de verdade
ou uma pseudo-solidão?

Saudade, saudade,
um não completar-se de
não tão rara emoção

Saudade, saudade,
embora pareça eternidade
nada mais que sensação

Saudade,
de pensamento de outrem,
solidão

Saudade,
de tanto corroer-se em
emoção

Saudade,
Uma indescritível
Sensação

De tanta dor,
Silencia-se
Só

Poesia: Sobre a Saudade V


Sobre a Saudade V
[Mateus almeida Cunha]

“De repente, nunca mais esperaremos”
De repente, nunca mais seus olhos a me penetrarem
De repente, nunca mais sua voz a me chamar
De repente, nunca mais seus lábios nos meus
De repente, nunca mais sua mão macia sobre meu corpo nu
De repente, nunca mais seus seios em minhas mãos
De repente, nunca mais estaremos

De repente, se acabou
De repente, sua ausência
De repente, se finda uma vida
De repente, a solidão 
e
De repente, se acostuma
De repente, se solidifica
De repente, se petrifica

De repente, não tão de repente
De repente, outro amor
De repente, outra dor
De repente, não se acostuma
De repente, não mais se satisfaz
De repente, outra separação
De repente, “tudo dói”        



[Citações: 
Vinícius de Moraes, "Poema de Natal"
Caetano Veloso, "Tudo Dói"]

Poesia: Tarde em Mangue Seco

Tarde em Mangue Seco
[Mateus Almeida Cunha]



Mar, maresia, uma miragem.
A água salgada sob o Sol reflete o dia
em movimento com as ondas a nos embalar
e transcender à paisagem estática
que lentamente carrega as nuvens que sombreiam os corpos seminus
que sentem a fina areia fria sob os pés descalços.
Percauços.

As ondas, de espumas brancas,
misturam-se em cores com o azul-marinho
e dissolvem as esculturas de areia
que as crianças formam, tao disformes,
ao longe, ao mar,
Ah, amar

As esculturas

estão constantemete a desconstruirem-se,
com o embalo sutil das ondas
que lhe levam sua matéria-prima,
areia

Não há relógios a contar o que está a ocorrer,
cujo tempo parece permanecer estático, nulo, único,
para deleitarmo-nos, enquanto carros e assaltos e motos e bancos e lojas e avenidas

enchem as cidades que fugimos.



[Feito em Mangue Seco, numa tarde na praia]



sexta-feira, 6 de abril de 2012

Poesia: Sobre o Amor I




SOBRE O AMOR I
[Mateus Almeida Cunha]


Na vastidão da plenitude,
o amor

Aquilo que nada se sabe.
Aquilo que tudo se sente.
Aquilo que nada ressente.

Na imensidão da quietude,
o amor

Aquilo, de dentro, emoção.
Aquilo que poucos sentirão.
Aquilo que vibra, pulsação.

Entre poucos, se ama.
Na amplidão, o amor não trai.

Entre tantos, se ama.
Na amplidão, o amor não se esvai.

Entretanto, se ama.
Na amplidão,
 o amor .

Ensaio: Homenagem aos Pais


Ensaio: Homenagem aos Pais
[Mateus Almeida Cunha]



Pois que nada disso haveria se eles não existissem. Pois que nós não existiríamos, se não fosse por eles. É a quem devemos as nossas vidas e a quem devemos agradecer. A quem nos gerou e nos acompanhou ao longo de todos esses anos. A quem nos ensinou a ser quem somos. A quem nos disse que a vida não seria fácil, mas é verdade também que nunca nos disseram que seria tão difícil... 

Devemos agradecer por, diante de tantas dificuldades, diante de tantas escolhas, escolheram priorizar a nossa educação e por terem escolhido nos amar. Se, por algumas vezes, tivemos dúvida de como conduziram as coisas e se acreditamos que erraram, foi com a certeza de que fizeram o melhor que poderiam ter feito. E se, porque erraram, foi com a certeza que estavam fazendo o melhor, e isso basta. Por terem sido nosso exemplo de vida e por nos sentirmos orgulhosos de os termos como pais. 

Por terem nos dado forças e terem acreditado no que fizemos (ou fazemos), mesmo quando ainda nos restava alguma dúvida. Ou, mesmo quando não aceitando nossas escolhas, as respeitaram por nos amarem. Quando acreditaram em nós, mesmo quando nós mesmos não tínhamos certeza de nada e, mesmo que por algum instante, pensamos em desistir de tudo ou de parte do que já havíamos conquistado. Por nos terem dado força e estímulo, por nos terem feito fortes, por nos apoiarem. Pais, obrigado por tudo.



[Escrito por encomenda, a pedido de Tiana Sampaio]

Ensaio Sobre a Afinidade




ENSAIO SOBRE A AFINIDADE
[Mateus Almeida Cunha]


Conhece-se. Gosta-se. Convive-se. Decerto que nem sempre as coisas ocorrem assim. Talvez pela ausência de afinidade. Afinidade. Como defini-la? Talvez afinidade seja aquilo que se sente com alguém que se gosta, tal qual a empatia. Tal qual um querer. Tal qual um estar perto, fazer-lhe bem, convidar-lhe ao convívio. Como se não precisassem falar, e seus assuntos fluíssem de forma “averbal” (com o perdão do neologismo). Como se se soubesse o que o outro diz, gosta, faz, sente, reage. Como se não se precisasse mentir. Como se sempre se despissem verbalmente, numa enxurrada de pensamentos indizíveis. Afinar-se. Completar-se. Refugiar-se. Como se se soubesse de tudo e, ainda assim, houvesse algo para completar. Não possuir um ponto final. Viver em ponto de seguimento infinito. Viver em vírgulas, em reticências e gostar das exclamações. E quantas! Oh, quantas!

“Amigos não se faz, se reconhece” [Vinícius de Moraes]. Afinidade não se busca, se possui, muito antes mesmo de se tê-la. Afinidade é algo que atrai, que marca, que seca, que pesa. Afinidade é saber conviver. É saber entender. É saber respeitar. É saber quando opinar. É saber o que opinar. Afinidade pode ser um hiato de meses sem comunicação devido a alguma ausência e, quando da presença, uma verborragia como se houvessem conversado no dia anterior, na hora anterior, ou mesmo se nunca tivesse tido separação. Afinidade é ter fluência. Enfim, afinidade é fluir-se em outrem.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Crônica: Uma Horda de Inconsequentes e Incompetentes




UMA HORDA DE INCONSEQUENTES E INCOMPETENTES:
SOBRE A GREVE DA PM-BA (2012)

[Mateus Almeida Cunha]


Se, por um lado, a Constituição Federal Brasileira garante a todos o Direito a greve, essa atitude legal (apesar de ser imoral) dos Policiais Militares baianos, em seu 9º dia, causou nada mais que 132 assassinatos (registrados), mais de 200 roubos de veículos (registrados), dezenas de arrastões, prejuízos estimados em R$ 400 milhões além de terror psicológico na população.

Há de se ter consciência que, em muitas vezes, apesar de certas ações/atitudes serem legais, não significa que sejam morais ou tampouco dignas de elogios. Quando se escolhe uma profissão, deve-se abraçar a sua causa máxima. Os policiais têm a importantíssima função de proteger a população, manter e garantir a ordem (ao menos isso), o que não vem sendo feito. Policiais, médicos, bombeiros (e outros que agora não tenho capacidade de lembrar) não podem em hipótese alguma fazer greve. Suas ações (ou falta delas) põem vidas em risco ou, pior, induzem à morte. Qual classe profissional pode (legalmente) se afastar de suas funções (entenda: fazer greve) fortemente armada? Isso é abuso de poder. O Supremo Tribunal Federal (STF) afirma que os servidores públicos têm direito à greve, mas esse direito não é válido para serviços públicos realizados por grupos armados, tais como policiais civis e militares!



Apesar de também ser algo legal (porém imoral) a greve dos rodoviários também é repudiável por gerar o caos em toda uma cidade, impedindo a todos o direito de ir e vir assegurado na Constituição Federal. Bom, sob esse aspecto, portanto, me parece ser inconstitucional, mas isso não vem ao caso. O que deve ser destacado é que a greve dos rodoviários, por exemplo, não é responsável pelo assassinato de pessoas, roubo de veículos nem arrastões. A greve (arruaceira) de estudantes também não provoca homicídios. A propósito, por falar em estudantes, os PM puderam atirar contra eles, com projéteis de borracha numa das greves que ocorreu, “para manter a ordem”. Entretanto foi dita condenável, pelos PM, a tática usada pelo Exército para “restabelecer a ordem”, usando o mesmo tipo de arma com projéteis de borracha. É estranho se pensar que PM pode atirar em estudante, mas o Exército e/ou a Força Nacional não pode atirar na PM.



São sabidas as condições de risco que os policiais estão sendo expostos diariamente para assegurar a nossa integridade física (e também psicológica), bem como as deficiências existentes em qualquer setor e majoradas na área de Segurança Pública (falta de coletes, viaturas, armamento, dentre outras tantas). Mas, isso não é motivo de serem cúmplices de assassinatos coletivos e manifestação de terror à população. É... o Poder Executivo, com sua horda de policiais, parece mesmo estar conseguindo realizar a “execução”... mas, dessa vez, dezenas de pessoas...

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Ensaio: Nós Não Somos... Quem Somos: Somos Aquilo Que Fizeram de Nós

 
NÓS NÃO SOMOS... QUEM SOMOS: SOMOS AQUILO QUE FIZERAM DE NÓS
[Mateus Almeida Cunha]



Somos temporalidade e culturalidade. Somos o que somos ou, melhor, quem somos, por questões temporais e culturais. Aos poucos, tornamo-nos seres. A realidade que temos (ou cremos) não foi por nós construída, mas nos foram atribuídas, muitas vezes sem questionamentos. E, a ausência de questionamentos, transforma-as em dogmas. Não há questionamentos para essas verdades. Mas por que não as temos? Por que não as criamos? Aceitamos, por medo de parecermos estranhos num grupo sociocultural que nascemos. E o medo faz parte do nosso instinto ancestral de sobrevivência. Porque sem os medos, degradaríamos (e destruiríamos) a nossa própria vida. Poderíamos subir sem o medo da queda ou poderíamos nadar até exaurirem-se nossas forças até o afogamento eminente.

Somos temporalidade porque se nascêssemos em outra época não seríamos quem somos. E somos culturalidade porque somos quem somos graças ao que nos é transmitido. Portanto, somos instante e cultura. Se tivéssemos nascido há alguns bons anos, seríamos especialistas em datilografia e não teríamos nenhum tipo de conhecimento em informática, já que esta não era de domínio popular. E se, ao contrário, nascêssemos daqui a muitos anos poderemos ter (ou desenvolver) habilidades que não temos (ainda) e talvez não consigamos nem supor tê-las. O fato de não termos nascido homens fortes na Roma Antiga deixou-nos o (anti-)legado de não sermos gladiadores, bárbaros e, por algumas vezes, primitivos. E se os fôssemos, poderíamos ser fortemente exaltados, reconhecidos e dignificados pelo fato de sabermos matar. E, nessa mesma Roma, a presença de uma deficiência física seria responsável por sermos assassinados ainda crianças, lançados de penhascos por não podermos servir ao seu Exército, tamanha era a sua crueldade com os que não lhe serviriam. Porque poderíamos fazer orgias sexuais com naturalidade que, muitas vezes, hoje, ainda são vistas com maus-olhos porque isso ainda não é aceito explicitamente. Seríamos politeístas, faríamos oferendas. Seríamos tão diferentes...

Ao longo dos anos tornamo-nos hipócritas. Porque somos politicamente polidos a chamar as putas, de profissionais de sexo, ainda que o nosso pensamento primário venha a ter a palavra pu-ta. Sim, putas. Que mal há em dizer algo exatamente da forma em que pensamos a forma da palavra? Porque somos forçados (obrigatoriamente e necessariamente) a padronizarmos nosso vocábulo, torná-lo culto, entendível e politicamente correto. Não chamamos mais os pretos de cor de pele, de pretos, mas ascendemos uma cor a uma cultura e os chamamos de afrodescendentes. E não nos esqueçamos que somos pretos e brancos e vermelhos e amarelos. Prefiro dizer que somos seres, apenas, porque não há mais raças. Há seres, apenas, e isso basta.

Torna-se muito claro, portanto, a fragilidade na qual estamos submetidos quando da nossa fase de entendimento de mundo e autoentendimento. Qual a nossa autenticidade? Quanto do nosso pensamento é, de fato, nosso, e quanto dele foi-nos transmitido e moldado? Porque engolimos as convenções sociais, as leis, os mitos, os dogmas, o conceito de ética. Mas, muitas vezes, apesar de engolirmos tudo isso, não digerimos. Entalamos, vomitamos e temos novamente de engolir. Essa é a vida tal como ela é. Basta abrir os olhos. Mas, cuidado, não os abras demais, pois podes cegar-se. Mascaram-nos e mascaramo-nos. No fundo, somos fruto do que querem que sejamos.

Nós não somos, portanto, quem somos, porque somos aquilo que fizeram de nós. O que nos passaram, moldaram, cuspiram, ensinaram, reiteraram, confirmaram, negaram, confundiram, sacanearam, dignificaram e, por fim, o óbvio: o que querem, de fato, que sejamos. Somos esses outros serem cobertos de máscaras sociais multifacetadas para o escritório, as férias, a família, os amigos, o seu íntimo, que nos querem. O nosso próprio íntimo. O que nos faz fortes e nos decepciona. O que nos empalidece. O que nos fortifica. O que nos dignifica? Um brinquedo a ser doado no Natal? Um pacote de arroz a ser doado numa campanha beneficente às vítimas de enchente? Um colchão velho e que nos é inútil a um desabrigado? Fazer uma apresentação de coral num asilo no dia do idoso? Comprar flores e dar às mulheres no seu dia? Encher nossos infantes de doces e brinquedos eletroeletrônicos no Dia das Crianças? O que nos faz felizes? O que é felicidade? O que é ser feliz? Ser feliz é estar. Estar? Sim. Estar. Estar bem, sentir-se bem, fazer-se bem e fazer o bem. Isso pode ser um passo para a felicidade. Mas não nos esqueçamos do autoconhecimento. Do saber o que se gosta, o que se é e o que se quer. Isso esbarra profundamente no que querem que gostemos, que querem que sejamos e que achem que queremos.

Tiremos, então, as máscaras e mostremo-nos quem somos. Mas, cuidado, a máscara pode estar a tanto tempo fixada-lhe à face que não seja mais possível arrancá-la. Ou, se arrancá-la, pode ficar com marcas profundas, causados por si mesmo. Pelo que gostaria de ser, e não o é, ou, pior, pelo que queriam que fôssemos. Fernando Pessoa escreveu, certa vez: “Fiz de mim o que não soube, e o que podia fazer de mim não o fiz”. Façamos, então, o que podemos fazer para nos mostrar. Mostremo-nos. arranquemos as máscaras e saiamos do palco. Corta!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Ensaio: Sobre a Palavra (ou Sobre Uma Palavra)

ENSAIO: SOBRE A PALAVRA (OU SOBRE UMA PALAVRA)
[Mateus Almeida Cunha]



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos"
[Carlos Drummond de Andrade]


Uma palavra, muitas vezes, é tudo o que se quer ouvir. Na verdade, é apenas o que se quer escutar. Apenas uma palavra, sim: uma palavra. Aquela palavra não dita. Aquilo que o próprio silêncio se encarrega de contar, quando o óbvio é mesmo óbvio e o indizível toma conta de todo o ser. A não-palavra. E, quando se deve calar, surge aquela palavra. Quando se quer calar: uma palavra. Quando não se deve calar, nenhuma palavra. Apenas uma palavra para se fazer feliz, para enaltecer. Também há aquela palavra que faz entristecer e, dela, melhor nada ser dito. Quero que digam-me palavras belas em doses homeopáticas sempre pelas manhãs para que, ao acordar, sinta-me amado e também ao final do dia para que, ao dormir, sinta-me reconfortado.

Quanto tempo dura o silêncio? Não me venham com a palavra escrita cheia de normalismos ou formalismos, porque eu quero mesmo é a palavraverdade, a palavrassorte e a palavramor. Todas assim, ditas como se tudo fosse tudojunto, sem pontuação, sem som, sem ordem, sem melodia. Quero essa palavratrêmula a vibrar as cordas vocais do narrador e reverberar meus tímpanos. Bum... bum... um... um... hum... hum... m... m... Retumbantes sons reverberando na caixa craniana a banhar-me se sensações orgásmicas: o neologismo. Surpreenda-me com a palavrainexistente, a não-grafia, como um soco a penetrar-me perante o desconhecido. Como uma palavraenormeamepenetrar e me entalar com que ouvi e não consegui decifrar. Como um vômito da palavrassincera. Neologismos necessários. Surpreenda-me: ashs gasm razm fazmem dzárguem. Oh sim, como lhe escuto. Não ouso compreender, mas prometo escutar-lhe. E quando eu digo lhe escuto é porque soa melhor que o te escuto, que parece afastar-nos. Juro guardar o seu sibilar sonoro sincero em suaves e solitárias emoções a surpreenderem-me em um único nós. Porque assim não estaremos sós, com a palavrajunto. E não ouse pronunciar a palavrerrada para que tudo se finde.

E não me canso de inventar a palavrencantada: contarei ûma istória a algúmas crianssas que não saybam ex-crever. Num reino tão-u diztante e muinto longe daqui vivia umafada. Umafadamuinto linda que çonhava encontrar um príncipe emcantado para cazar e... Eu poderia fazê-las muito felizes. Porque não se é feliz: está-se. Está-se feliz. E se for apenas uma história oral, elas nunca saberão que meus rabiscos que a fizeram felizes por instantes carregam palavras que, em si, em sua carne, não se sustentam na ortografia. Porque aqui, permito-me. Porque aqui permito-me ser-e-escrever comoquizer umacertesa: serei lido e, melhor, compreendido. De que me vale a forma? De que vale a padronização para se viver se mesmo sem pontuação e sem métrica e sem rima e sem respiração com a repetição dos dias é que vivemos e repetimos e repetimos e repetimos e se vive e se entende e ainda assim sem fôlego toma-se fôlego e entende-se o que deve ser entendido porque a maldita forma da palavra dita essa palavra mal dita ou melhor essa palavra maldita pode arrancar lágrimas e sangue e silêncio e solidão e esse corre-corre dos nossos dias que nos faz deixar de pensar o que fizemos hoje e ontem e anteontem e trasanteontem e na semana passada e no mês passado e sabemos apenas que houve Natal e Dia das Crianças e Dia dos Pais e São João e Dia das Mães e Páscoa e Carnaval e Natal e Dia das Crianças e começamos e recomeçamos e terminamos e ciclotizamos e cansamo-nos e dormimos e sempre cansamos e cansamos e cansamos e enjoamos e dormimos. Ufa! Mas a verdade é que cansamos. E cansamos de nossas vidas. Ah, como cansamos. E aqueles que acham que não estão cansados, ai desses... Tsc tsc tsc... É preciso ouvi-los com a alma, pois eis que não sabem dizer a verdade ou, pior, não a ousam. Porque a verdade dói e é cruel: crudelíssima.

Em sua essência a palavravida é que nos move. A palavramor é que nos reconforta. A palavradistração é que nos faz felizes. A palavrarrespeito nos torna humanos e a palavrahumilhação, a tragédia de nossas vidas. E ainda assim rezam. E como rezam para que, como num ato de desespero, como uma última esperança (pois é ela – e apenas ela – que resta) sejam ouvidos. E assim a palavrarreza nasceu não se sabe quando, nem onde, em ladainhas desde os primórdios. Sabe-se apenas por quê. Talvez porque sejamos incompletos ou, pior, queiramos estar incompletos. E isso basta. Porque deixamos a palavrassilêncio fluir e, em sua seiva, ela carregará a palavrassom e nos carregará, em matéria de carne e osso para o sepulcro na palavrador. Mas não nos deixar cair em tentação e livrai-nos de todo o mal.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Ensaio: Sobre o Silêncio (ou Sobre a Solidão)

Ensaio Sobre o Silêncio 
(ou Sobre a Solidão)
[Mateus Almeida Cunha]



Não ouço a sua voz. Nada! Depois de tudo o que temos, que somos, que fizemos, só tenho o seu silêncio. Nada mais: apenas o silêncio. Um silêncio crudelíssimo a me penetrar vagarosamente o corpo, surgindo-me distintas emoções recheadas de pensamentos que certamente não traduzirão o que estou sentindo ou que deveria sentir.

Esse seu silêncio significa a sua ausência, que é muito pior que a sua presença em meio a discordâncias. Essa sua voz que não ouço, esse vazio que me dói, essa angústia que me preenche. Essa ausência que me corrompe... Como um cristal, pseudo-pétreo, sou frágil. Só caibo em mim. E se caio, meus cacos não "me farão ser-me" novamente. Porque não sou: estou. Porque não vivo: sobrevivo. Porque não falo: silencio.

Entre duas paredes, o maciço. Entre olhares flertivos, fugidios, felinos, felizes, fugazes, me firo. Não me refiro às barreiras intransponíveis, mas ao fato de ter sido posto um ponto: um muro
entre dois mundos. Um muro. Um mundo. Um novo mundo. Mudo-me, faço-me, refaço-me, desfaço-me, construo-me, desconstruo-me, reconstruo-me a cada silêncio. A cada ausência disfarçada, a cada silêncio seu, sozinho, sonho, sofro, sufoco e esses seus atos que me vêm à cabeça, seus atos, seus atos, seus atos, seus atos, seus atos, seus atos... Seus autos!

Tranquilizo-me com aquilo que somos, que temos, que não somos, que dissemos, que somos, que fizemos, que não somos, que contamos, que somos, que choramos. Agora não estamos. E fica a lembrança ou (des)consolo do seu não-som...

As horas têm sido difíceis. Nunca disseram que não seriam assim, mas a esperança faz da nossa vida uma arte e, nessa parte, nunca entendi (ou nunca me quis entender). Eu nunca cri em verdades não ditas, mas no silêncio maldito, um medo atroz. Fujo. Fujo-me. Finjo. Finjo-me. Malditas palavras não-ditas. Antes tivesse ouvido: - adeus. Mas o silêncio prossegue nesse castigo a me atormentar: o seu silêncio.


Escrito integralmente no celular, durante o show de Vitor Passos e Victor Longo, ao ler um e-mail de Ana Patrícia com a temática sobre o silêncio, de autoria desconhecida. Rio Vermelho, Salvador, 18/10/2011. Ilustração de  Eduard Münch, "A Separação II", sugerida por Ana Patrícia.

Ensaio: Sobre a Existência (ou Sobre a Resistência)

Ensaio Sobre a Existência 
(ou Sobre a Resistência)
[Mateus Almeida Cunha]



Existe-se. Apenas isso: existe-se. E nada mais se sabe. Nada mais se saberá ou se quererá saber: existe-se. Sabe-se que se vive, sabe-se que se morre e sabe-se que não se sabe. Nada (ou quase nada) se sabe ou se saberá (espanto!). Existe-se. Resiste-se.

E como num vão suspiro, num átimo, sobrevivo. Apenas isso: sobrevivo. Em meio a olhares fugidios de cidadãos desconhecidos, ouso lançar olhares flertivos a quem me interessa. Por ora, nada tenho feito, já que nada (mais) me interessa. Já que nada me toca e numa tentativa anti-blasè, me espanto. Mas, nada mais me admira, pois há anos tenho-me admirado a cada dia, esgotando-me lentamente. Seria a velhice o ápice da ausência total de sentimentos, gastos por toda uma vida? Seria a escolha que se faz, uma própria não-escolha que não se escolhe? Existe-se. E apenas isso: vive-se. Sobrevive-se.


"Se você gostou muito do dia, então viva outro melhor"¹. Conseguem-se dias melhores? Como fazê-los? E se os fazemos, como permanecê-los ou, melhor, como congelá-los se somos a cada dia (im)postos a descer nessas "escadas rolante da  gente"¹? Como se esquecer daquela angústia que ficou e, se não ficou, como saber mastiga-la, degluti-la, digeri-la, expeli-la? Porque existimos. Porque queremos existir e, se não o fazemos, atropelamo-nos ou atropelam-nos. A verdade é que estamos sendo atropelados a cada dia. E se não o queremos, como não permiti-lo? Existimos. Repetimos.
  
Deve ser frustrante não se fazer o que se gosta. Deve ser frustrante não conseguir fazer o que se quer. Porque somos frustrados. Porque, lá no fundo, temos um sonho idealizado, não realizado. Porque lá no fundo, dói não executá-lo. Porque dói não expô-lo da forma que se queria. Que se gostaria. Que se quereria. Enfim, que se realizaria. Porque somos frustrados e frustramo-nos pelo fato de sê-lo. Porque não somos o que somos. E, se somos, apenas isso: somos. Somos? Existimos e frustramo-nos.

Felicidade? O que é ser feliz? "Ser feliz serve pra quê", Clarice [Lispector] O que basta para se tornar feliz? Sim, Foucault, "o que estamos fazendo de nossas vidas?". O que queremos de nossas vidas? O que tentamos? O que somos? O que queremos? O que partimos? O que morremos? O que faremos? O que faremos? O que faremos? O que faremos? O que faremos? O que faremos? O que faremos? O que faremos? O que faremos? O que faremos? O que faremos? 


Desespêro. Desespéro (acentuação graficamente incorreta, mas necessária para o entendimento - se é que algo aqui é entendível e se é que a vida, per si, é entendível). Desesperamo-nos quando não sabemos o que fazer. E gritamos e choramos e pedimos e sentimos e fugimos e perdemos e não sabemos. E existimos. Apenas isso: existimos nessa visão existencialista tendendo ao pessimismo. Existimos? Resistimos. Frustramo-nos e resistiremos. Enfim, isso é a existência: a plenitude que não se completará jamais.

¹Excerto da canção "As Escadas Rolantes da Gente", de Victor Longo


Escrito integralmente no celular, durante o show de Vitor Passos e Victor Longo, no Rio Vermelho, em 18/10/2011. Pena que, devido a uma pane no celular, perdi uma boa parte do texto (cerca de dois parágrafos).

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Poesia: Sobre a Solidão VIII

SOBRE A SOLIDÃO VIII
[Mateus Almeida Cunha]



O silêncio!
(escuta)
Ouve essa não-voz que lhe chama
Ouve essa voz que lhe clama
Que que muda, que lembra, que pede.

Em meio a tantos amores perdidos,
correspondidos ou não,
deixados no tempo, em vão,
esquecidos, perdidos
uma lembrança a surgir.

A solidão!
(escuta)
Sente esse vazio que lhe vem
Sente esse vazio que lhe tem
Que que grita, que fica, que implora

Em meio a tantos corações destroçados,
dilacerados ou não,
largados no tempo, se vão,
despercebidos, partidos
uma lembrança a fugir.

O vazio!
(escuta)
Sente essa angústia que lhe corrói
Sente essa angústia que lhe dói
Que chora, que fere, que dilacera.

Entre tantos amores feridos, uma enorme desilusão.
Entre tantos amores antigos, a imensidão da solidão.
Entre tantos amores esquecidos, a vastidão da solidão.
E uma sombra a nos rodear.