Mais uma vez, concordando com Clarice Lispector:
"Eu me deixo ser!"
Por ora, acho que isso basta!
sexta-feira, 16 de abril de 2010
sábado, 3 de abril de 2010
Ensaio: A Inexistência das Máquinas
Às vezes, penso em como poderia ser o mundo sem a existência das máquinas. Não máquinas como se costuma pensar nos filmes futuristas, mas máquinas comuns, coisas corriqueiras: computador, telefone, celular, televisão, câmera digital, rádio, automóveis, chuveiro elétrico, máquina de lavar roupas, relógio etc. Isso parece ser inimaginável e, de fato, é. Parece que tudo que poderia ter sido inventado já o foi até o final do século XX e, a partir de agora, só nos resta re-inventar... aperfeiçoar... dar melhor utilização... enfim...
Deve ser assustador se, um dia, ao levantar percebermos que não há mais como saber as horas pelo método "convencional" (ou tradicional: o relógio), pois ele não mais funciona. E aí, adeus compromissos: festas (casamentos, aniversários, batizados), aulas, trabalho, encontros com amigos ou romances. Catástrofe total!
Adeus também notícias pela televisão, rádio, internet... estaríamos ilhados. Destinados à própria morte, já que nem os aparelhos dos hospitais seriam capazes de funcionar. Se alguém adoecesse gravemente? Morte na certa... E a "cegueira" parcial que haveria? Qual máquina seria capaz de produzir as lentes dos óculos? A visão do/de mundo para grande parte da população mundial estaria fadada a mudar, adaptando-se ao seu novo "foco". Qual foco? A distorção, posto que só ela reinaria. Haveria então uma nova era, talvez já prevista por José Saramago em seu magnífico livro "Ensaio Sobre a Cegueira", onde a população (de uma meneira diferente) teria essa tal cegueira branca, como se enxergasse um mar de leite... uma brancura leitosa total.
A pobreza reinaria. Quais cofres eletrônicos ou bancos 24 horas funcionariam para que sacássemos o "pão-nosso de cada dia"? Débito em conta? Cartão de crédito? Rá... Isso seria coisa do passado e o que pensamos hoje que faz parte da modernidade ficaria apenas na lembrança de um passado remoto de uma era em que o homem era capaz de dominar as máquinas. Talvez, a parada brusca de todas as máquinas seja/seria a Revolução das Máquinas tão citada em livros e filmes de ficção. Tudo isso que usamos hoje, chamadas de comodidades (ou facilidades) da vida moderna, de nada teria serventia.
Depois de sofrermos todo o processo evolutivo ao longo de milhares de anos, entraríamos num hiato produtivo em que teríamos de nos adaptar a uma nova forma de lidar com a natureza e com o próprio homem. Lembrando que o homem faz parte da natureza, apesar de muitos não se lembrarem ou, muito pior, fazerem questão de esquecer.
Desde que o mundo é mundo sempre houve momentos de crise, seja ela econômica/financeira, cultural (artística, literária etc.), religiosa e outras tantas. Os egípcios foram capazes de construir, com a tecnologia disponível na época, tantos monumentos que até hoje não se tem certeza absoluta de como puderam ser construídos. Existem teorias. Os filósofos gregos da Antigüidade Clássica já supunham que a Terra movia-se em torno do Sol... idéia que depois foi desconstruída na Idade Média e só muito tempo depois, retomada. O politeísmo já tomou parte de tantas culturas (principalmente as antigas) e hoje, na nossa sociedade Ocidental domina a idéia do monoteísmo. Sem querer ofender nenhuma religião, mas trabalhando com fatos, grande parte dos católicos esquece que Jesus (personagem central da Bíblia) era judeu. E óbvio que, quando ele nasceu (segundo a Bíblia) o Cristianismo não poderia existir, já que ele era o Cristo. Portanto, Jesus não era cristão. Os monoteístas também se esquecem que eles são "parcialmente ateus" por crerem em menos deuses do que os politeístas. E os ateus só crêem em um deus a menos que os monoteístas e isso não nos torna (falo aqui como ateu) más pessoas.
Enfim: máquinas, ausência de máquinas, épocas de crise, religião... tudo parece ter sido dito num "Sábado de Aleluia".
Sobre as máquinas é importante termos certeza de que agora somos escravos da nossa própria criação. E se achamos que as dominamos é só pensar em viver sem elas...
domingo, 28 de março de 2010
Poesia: Sobrevivo (Edna Almeida Cunha)
É com muita satisfação (e orgulho) que faço a primeira postagem de um poema inédito, de autoria de minha mãe (Edna), digno de ser publicado. Quando, hoje à noite, ela me mostrou, terminei de lê-lo com os olhos banhados em lágrimas, em meio a um estado de transe. Extasiado! Cada palavra dita carrega outras tantas não-ditas.... malditas. Ele é um soco no estômago! Lindíssimo!
Sobrevivo
(Edna Almeida Cunha)
Sobrevivo!
Apesar desse vazio
que habita em mim.
Esse silêncio, esse nada
esse espaço oco
que não me abandona...
Sobrevivo!
Além ou aquém
desse abismo
que me separa do resto do mundo;
abismo invisível...
porém intransponível.
Ainda assim
Sobrevivo...
Mesmo com essa falta
constante e insistente,
de alguém ou
será de alguma coisa?
Nesse espaço desocupado,
abandonado, escondido,
perdido, despercebido
desse jeito
Sobrevivo!
domingo, 21 de março de 2010
Divagações: Frases de Impacto (Clarice Lispector)
Há muito a se dizer sobre Clarice Lispector, principalmente que a sua literatura é algo que se sente: ou toca, ou não toca! É preciso lê-la para saber. E, como ela, foram poucos os intelectuais capazes de descrever (com tantos detalhes) os sentimentos humanos e os conflitos psicológicos. Clarice foi, inclusive, considerada "a" Franz Kafka da língua portuguesa. Nasceu na cidade de Tchetchelnik, na Ucrânia, com a data de nascimento incerta, sendo 10 de dezembro de 1920 a que parece ser mais "correta". Veio com a família para o Brasil muito cedo, quando morou em Recife. Em 1930 perde a mãe. Alguns anos depois muda-se, com a família, para o Rio de Janeiro. Cursou Direito. Escrevia na sala, no quarto, com a máquina de escrever no colo e as crianças brincando e correndo pela casa, com a empregada cuidando dos afazeres do lar. Nunca se considerou uma escritora, apesar de sabermos que sempre fez esse ofício com maestria... Falecera em 09 de dezembro de 1977, na véspera de seu 57º aniversário. Seu último livro, publicado em vida foi "A Hora da Estrela", que escreveu em paralelo com "Um Sopro de Vida (Pulsações)".
"Quem não é um acaso na vida?"
"Perder-se também é caminho."
"Com todo perdão da palavra, eu sou um mistério para mim."
"Não era à toa que ela entendia os que buscavam caminho. Como buscava arduamente o seu! E como hoje buscava com sofreguidão e aspereza o seu melhor modo de ser, o seu atalho, já que não ousava mais falar em caminho. Agarrava-se ferozmente à procura de um modo de andar, de um passo certo. Mas o atalho com sombras refrescantes e reflexo de luz entre as árvores, o atalho onde ela fosse finalmente ela, isso só em certo momento indeterminado da prece ela sentira. Mas também sabia de uma coisa: quando estivesse mais pronta, passaria de si para os outros, o seu caminho era os outros. Quando pudesse sentir plenamente o outro estaria a salvo e pensaria: eis o meu porto de chegada. Mas antes precisava tocar em si própria, antes precisava tocar no mundo." (Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres)
“Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada nem a ninguém. Nasci de graça. Se no berço experimentei essa fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus ( ... ) Quem sabe se comecei a escrever tão cedo na vida porque, escrevendo, pelo menos eu pertencia um pouco a mim mesma.” (A Descoberta do Mundo)
“Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece.” (A Descoberta do Mundo)
“Senti-me então como se eu fosse um tigre com flecha mortal cravada na carne e que estivesse rondando devagar as pessoas medrosas para descobrir quem teria coragem de aproximar-se e tirar-lhe a dor. E então há a pessoa que sabe que tigre ferido é apenas tão perigoso como criança. E aproximando-se da fera, sem medo de tocá-la, arranca a flecha fincada.” (Água Viva)
“Mas é que também não sei que forma dar ao que me aconteceu. E sem dar uma forma, nada me existe. E – e se a realidade é mesmo que nada existiu?! quem sabe nada me aconteceu? Só posso compreender o que me acontece mas só acontece o que eu compreendo – que sei do resto? o resto não existiu. Quem sabe nada existiu? Quem sabe me aconteceu apenas uma lenta e grande dissolução? E que minha luta contra essa desintegração está sendo esta: a de tentar agora dar-lhe uma forma? Uma forma contorna o caos, uma forma dá construção à substância amorfa – a visão de uma carne infinita é a visão dos loucos, mas se eu cortar a carne em pedaços e distribuí-los pelos dias e pelas fomes – então ela não será mais a perdição e a loucura: será de novo a vida humanizada.” ( A Paixão Segundo G.H.)
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quinta-feira, 18 de março de 2010
Ensaio: Sobre os Questionamentos
Ensaio: Sobre os Questionamentos
(Mateus Almeida Cunha)
Chega um momento em que começam os por quês: (a) por que viver?; (b) por que trabalhar?; (c) por que acordar cedo?; (d) por que acordar tarde?; (e) por que visitar a família?; (f) por que? (...) por que?; (...) por que? (...)
É graças ao complexo pensamento humano que somos capazes de criar questionamentos, indagações, que na verdade são fruto da própria reflexão que, no fundo, pretendem satisfazer curiosidades primordiais que nunca serãodesvendadas. E, no momento em que começamos a nos questionar sobre as coisas,é sinal de que, no fundo, as coisas não vão nada bem. Preocupante? Talvez. Mas é isso que nos diferencia do resto dos animais: o pensamento! E, mais que isso, saber que sabemos: homo sapiens sapiens.
Lugar-comum? Sim. Mas, mais que isso, organização de ideias que nem sempre são bem organizadas e explicitadas. Chega um momento em que se precisa... precisa!
Às vezes, a incerteza do futuro causa mais medo que a própria certeza da morte.
terça-feira, 16 de março de 2010
Devaneios: Solidão I
DEVANEIOS: SOLIDÃO I
É mesmo uma verdade que, no fundo, somos um pouco sós e um pouco tristes. Isso é um fato! Pensar, é um fato. Sentir é um ato. E hoje apenas sei que nada sei...
A noite é longa e amanhã será um novo dia e, segundo Peninha, "certamente eu vou ser mais feliz". E por falar nisso, "quando a poesia realmente fez SENTIDO em minha vida"...
sábado, 6 de março de 2010
Poesia: Sentido(s)
SENTIDO(S)
(Mateus Almeida Cunha)
[para minha vó, Eunice, após 01 ano sem sua presença, em 06/03/2010 ]
Ai desses olhos que não podem enxergar
essa sua imagem marcada em mim,
como um sulco esculpido nas lembranças
cada vez mais distantes, ausentes.
Ai desses ouvidos moucos,
privados da sua voz serena
a entoar canções infantis
que nunca mais ouvirão.
Ai dessa boca sedenta
do sabor das comidas
caseiras, compotas e geléias
feitas com tanto amor.
Ai desse sentido tátil
que não sente sua pele,
seus beijos, seus braços, seus abraços
num embalo de acalanto.
Ai desse ar que não carrega consigo
seu perfume, cheiro de neném
a impregnar o quarto, a casa, a atmosfera
com a sua doce presença.
Ai desse coração dilacerado,
ao perceber a a falta que faz.
E como um sexto sentido,
hoje estar sentido pela Sua Ausência.
Poesia: Saudade ou Um Último Adeus
SAUDADE OU UM ÚLTIMO ADEUS
(Mateus Almeida Cunha)
Quem me entoou cantigas populares, crendices
Quem me contou histórias sobre a Ponta e o Cairu
Quem me fazia deitar ao seu lado, à noite, para rir sobre qualquer coisa
Quem um dia chamou meu sobrinho de “Baé, meu porquinho”
Quem me chamou de “Patinho”, por petiscar o dia inteiro
Não parece ser a mesma voz que ouço na memória tão recente,
Arranhada, sôfrega, latejando controladas emoções
Não parece ser a mesma voz quase inaudível do último dia em que tentamos conversar
Uma voz que balbuciava nomes, ao perguntar-me onde estavam os outros
Quais outros? Eles viriam?
Eles foram?
Mas você se foi...
Quem passeava lentamente comigo durante as tardes
E me fazia esperar seus passos lentos e cadenciados
Virem do meu quarto, calçados com uma pantufa
Gritando: “estou pronta, Seu Lobo!”
Esperando um beijo terno e um abraço confortável,
Além de um “boa noite e eu te amo! Durma bem e até amanhã”
Com medo de não haver amanhã...
Não sabe que esse momento se extinguiu no tempo.
E sufocam agora, nos lençóis da memória...
Aquelas mãos ressequidas pelo tempo, longo e cruel da labuta
Que tanto me acariciaram e acariciei,
Foram as mesmas mãos que se agarraram às minhas para não me deixar partir
Mas, parti daquele hospital. Perdoe-me, pois o tempo findou-me.
Com lágrimas nos olhos parti, com a certeza de que seriam as últimas vezes
Que meus olhos veriam-lhe assim: deitada, triste e apática
Delicada!
E fez-me estremecer o corpo
Uma dor dilacerou-me a alma
Ao ouvir nos corredores gélidos, os suspiros vãos...
É preciso estar atento para os que se vão,
É preciso preparar-se para os que partem,
Porque eles se vão
E seus passos se perdem nos corredores das trevas
Ocultos, silenciosos, desorientam-se e não voltam jamais
Ouço na madrugada passos que se perdem ocultos na memória...
Porque os que se vão somos nós
Nossos filhos, nossos pais, nossos amigos
É preciso sepultar essa dor que nasce tímida,
E se espalha por todo o pensamento.
Conseguiremos?
Vai ser difícil sem você...
Porque um século, é tempo demais para a nossa ínfima vida
E você não conseguiu suportá-lo.
Um fardo muito grande a se carregar.
Mas, você foi forte: você lutou
Mais que isso? Seria apenas uma agressão ao próprio corpo.
O seu espaço no meu armário continua vago para as suas coisas,
Que não sei se virão...
E agora, extasiado observo-a em seu último leito, petrificada...
Das flores amarelas: suas preferidas
Das brancas, apenas (des)colorem seu rosto mórbido e empalidecido
E todas cobrem seu corpo que jaz tão sereno
E finda uma existência tão bonita e alegre,
Matriarcal.
Descanse, repouse em paz!
Mas, é isso: da vida, o que esperar?
Da morte? Esperamos imensamente!
[10/03/2009 - para minha avó, Eunice que falecera em 06/03/2009]
quinta-feira, 4 de março de 2010
Poesia concreta: Pingo
Fiz essa poesia concreta há alguns meses e a adoro! Tenho uma adoração enorme por ela...
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P
ing
ping
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[Autoria: Mateus Almeida Cunha]
Poesia: Sobre a Saudade II
SOBRE A SAUDADE II
(Mateus Almeida Cunha)
Ter, não ter.
Apenas lembrar.
Tudo se perde,
se vai ou se esvai.
Por que nós não?
Por que não nós?
Vamos, não vamos
Somos, não somos.
Estamos.
Ficamos.Pelos que cedo
se foram: saudades.
Pelos que se foram:
lembranças etéreas.
Pelos que vão:
que não se vão...
Mas eles
não sabem
E não ficam:
fincam
seus laços
em nossa memória.
História,
glória.
Eis que fica:
a saudade dói!
Sem mais palavras,
essa tal palavra-saudade
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Sobre a Saudade
segunda-feira, 1 de março de 2010
Poesia: A Hora do Cansaço (Carlos Drummond de Andrade)
A HORA DO CANSAÇO
(Carlos Drummond de Andrade, 1984)
As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.
Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.
Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nós cansamos, por um outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.
Do sonho de eterno fica esse gosto ocre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Poesia: Foto amarelo-alaranjada
Amarelo,
laranja,
entre tantas cores,
entre cores multicores:
coloridas, furta-cores,
na foto amarelo-alaranjada o rosto da moça se escondia.
A imagem distorcida da foto editada,
recortada, alterada, modificada,
teria no rosto um sorriso, uma lágrima,
ou a imagem do McLanche Feliz a sua semelhança?
[Para Gisele Mota, a colega da foto, numa brincadeira sobre a sua nova foto do Orkut]
[Autoria: Mateus Almeida Cunha]
Texto: Depois da Guerra (Vinícius de Moraes)
Segue abaixo, um texto de Vinícius de Moraes que li há alguns anos no livro "Para uma Menina com uma Flor" e que me lembrei hoje, não sei por quê. O texto é do ano de 1944 (época da 2ª Guerra Mundial). Esse é realmente de Vinícius e não (mais) uma "publicação fraudulenta" de supostos autores que sempre recebemos por e-mail (especialmente Luis Fernando Veríssimo, Clarice Lispector, Millôr Fernandes e Arnaldo Jabor, que sempre sofrem).
Disponível em: www.viniciusdemoraes.com.br (Poesia & Prosa)
Boa leitura!
DEPOIS DA GUERRA
(Vinícius de Moraes)
Depois da Guerra vão nascer lírios nas pedras, grandes lírios cor de sangue, belas rosas desmaiadas. Depois da Guerra vai haver fertilidade, vai haver natalidade, vai haver felicidade. Depois da Guerra, ah meu Deus, depois da Guerra, como eu vou tirar a forra de um jejum longo de farra! Depois da Guerra vai-se andar só de automóvel, atulhado de morenas todas vestidas de short. Depois da Guerra, que porção de preconceitos vão se acabar de repente com respeito à castidade! Moças saudáveis serão vistas pelas praias, mamães de futuros gêmeos, futuros gênios da pátria. Depois da Guerra, ninguém bebe mais bebida que não tenha um bocadinho de matéria alcoolizante. A coca-cola será relegada ao olvido, cachaça e cerveja muita, que é bom pra alegrar a vida! Depois da Guerra não se fará mais a barba, gravata só pra museu, pés descalços, braços nus. Depois da Guerra, acabou burocracia, não haverá mais despachos, não se assina mais o ponto. Branco no preto, preto e branco no amarelo, no meio uma fita de ouro gravada com o nome dela. Depois da Guerra ninguém corta mais as unhas, que elas já nascem cortadas para o resto da existência. Depois da Guerra não se vai mais ao dentista, nunca mais motor no nervo, nunca mais dente postiço. Vai haver cálcio, vitamina e extrato hepático correndo nos chafarizes, pelas ruas da Cidade. Depois da Guerra não haverá mais Cassinos, não haverá mais Lídices, não haverá mais Guernicas. Depois da Guerra vão voltar os bons tempinhos do carnaval carioca com muito confete, entrudo e briga. Depois da Guerra, pirulim, depois da Guerra, vai surgir um sociólogo de espantar Gilberto Freyre. Vai se estudar cada coisa mais gozada, por exemplo, a relação entre o Cosmos e a mulata. Grandes poetas farão grandes epopéias, que deixarão no chinelo Camões, Dante e Itararé. Depois da Guerra, meu amigo Graciliano pode tirar os chinelos e ir dormir a sua sesta. Os romancistas viverão só de estipêndios, trabalhando sossegados numa casa na montanha. Depois da Guerra vai-se tirar muito mofo de homens padronizados pra fazer penicilina. Depois da Guerra não haverá mais tristeza: todo o mundo se abraçando num geral desarmamento. Chega francês, bate nas costas do inglês, que convida o italiano para um chope Alemão. Depois da Guerra, pirulim, depois da Guerra, as mulheres andarão perfeitamente à vontade. Ninguém dirá a expressão "mulher perdida", que serão todas achadas sem mais banca, sem mais briga. Depois da Guerra vão se abrir todas as burras, quem estiver mal de cintura, logo um requerimento. Os operários irão ao Bife de Ouro, comerão somente o bife, que ouro não é comestível. Gentes vestindo macacões de fecho zíper dançarão seu jiterburgue em plena Copacabana. Bandas de música voltarão para os coretos, o povo se divertindo no remelexo do samba. E quanto samba, quanta doce melodia, para a alegria da massa comendo cachorro-quente! O poeta Schmidt voltará à poesia, de que anda desencantado e escreverá grandes livros. Quem quiser ver o poeta Carlos criando, ligará a televisão, lá está ele, que homem magro! Manuel Bandeira dará aula em praça pública, sua voz seca soando num bruto de um megafone. Murilo Mendes ganhará um autogiro, trará mensagens de Vênus, ensinando o povo a amar. Aníbal Machado estará são como um perro, numa tal atividade que Einstein rasga seu livro. Lá no planalto os negros nossos irmãos voltarão para os seus clubes de que foram escorraçados por lojistas da Direita (rua). Ah, quem me dera que essa Guerra logo acabe e os homens criem juízo e aprendam a viver a vida. No meio tempo, vamos dando tempo ao tempo, tomando nosso chopinho, trabalhando pra família. Se cada um ficar quieto no seu canto, fazendo as coisas certinho, sem aturar desaforo; se cada um tomar vergonha na cara, for pra guerra, for pra fila com vontade e paciência – não é possível! Esse negócio melhora, porque ou muito me engano, ou tudo isso não passa, de um grande, de um doloroso, de um atroz mal-entendido!
05.1944
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Música: O Tempo Não Pára (Cazuza / Arnaldo Brandão)
O TEMPO NÃO PÁRA
(Cazuza / Arnaldo Brandão)
(Cazuza / Arnaldo Brandão)
Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara
Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não pára
Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta
A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára
Eu não tenho data pra comemorar
Às vezes os meus dias são de par em par
Procurando uma agulha num palheiro
Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros
Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro
A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára
Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta
A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára
Música: Roda-viva (Chico Buarque)
Tem dias assim...
RODA-VIVA
(Chico Buarque, 1967)
(Chico Buarque, 1967)
Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá
Roda mundo (etc.)
A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua, a cantar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a viola pra lá
Roda mundo (etc.)
O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a saudade pra lá
Roda mundo (etc.)
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá
Roda mundo (etc.)
A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua, a cantar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a viola pra lá
Roda mundo (etc.)
O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a saudade pra lá
Roda mundo (etc.)
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Poesia: A Brusca Procura de Mim
Humildemente vos peço:
- Não me falais sobre as angústias, pois nelas não há solução.
Olha: não me tomes por um cético indeciso que não compreende a essência das coisas,
pois que de tudo fica um pouco. Mas, o que fica mesmo é a sua incerteza de ser e de estar.
Repara: meus olhos já estão cansados de tanto buscar os reflexos
que cedo ou tarde mostrarão o que certamente não quereria perceber.
Sente, meu coração já não bate como antes: tempos idos, dias incertos...
coragem de arriscar e sentir o medo a percorrer o corpo, num ímpeto.
Percebe a vibração que emana dos meus movimentos sutis, estáticos
e percebe também que esse sangue escasso que pulsa em minhas veias mudou.
Ouve aquela voz distante a chamar-lhe a atenção das coisas corriqueiras
e espantas-te com o que vês e sente.
Inspira o cheiro que exala de meu corpo cansado e procura nele o meu próprio sentido,
pois agora que dei por mim, percebo que nada sei sobre esse corpo que carrego e essa voz que vos fala.
[Para Daniela Patrício refletir sobre essa angústia que sentimos do mundo...]
[Autoria: Mateus Almeida Cunha]
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Poesia: Vã Criação
Não faço versos como quem respira
do puro oxigênio a banhar-lhe a artéria
e percorrer o corpo da viva matéria.
Num arsenal de palavras disformes,
cada estrofe a se construir:
disparar sentimentos a ruir.
Seja métrica ou puramente poética,
eu preparo uma rima como quem ama ou sorri.
Talvez nem mesmo saiba se, um dia, algum coração parti.
Em sons rítmicos e descompassados de um verso avassalador
eu tento narrar o tempo que parece ser o que senti.
Em vão, fujo da música que insiste em sair.
Nessa vã criação,
nada além do bem ou do mal
a atormentar-me num dia quase fatal.
[Autoria: Mateus Almeida Cunha]
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Poesia: Você Não Vem
O Sol já se pôs, meu bem,
e você não vem!
É tão tarde...
e amanhã também
você não vem?
[Autoria: Mateus Almeida Cunha]
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