domingo, 20 de maio de 2012
Poesia: Sobre a Saudade X
Sobre a Saudade X
[Mateus Almeida Cunha]
O Sol já se pôs meu bem
E você não vem...
É tão tarde!
E amanhã também,
você não vem?
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quinta-feira, 19 de abril de 2012
Poesia: Sobre a Saudade VI
Sobre a Saudade VI
[Mateus Almeida Cunha]
Saudade,
saudade,
uma
ausência de verdade
ou
uma pseudo-solidão?
Saudade,
saudade,
um
não completar-se de
não tão rara emoção
Saudade,
saudade,
embora
pareça eternidade
nada
mais que sensação
Saudade,
de
pensamento de outrem,
solidão
Saudade,
de
tanto corroer-se em
emoção
Saudade,
Uma
indescritível
Sensação
De
tanta dor,
Silencia-se
Só
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Poesia: Sobre a Saudade V
Sobre a Saudade V
[Mateus almeida Cunha]
“De repente,
nunca mais esperaremos”
De repente, nunca mais seus olhos a me penetrarem
De repente, nunca mais seus olhos a me penetrarem
De repente,
nunca mais sua voz a me chamar
De repente, nunca
mais seus lábios nos meus
De repente,
nunca mais sua mão macia sobre meu corpo nu
De repente,
nunca mais seus seios em minhas mãos
De repente,
nunca mais estaremos
De repente, se
acabou
De repente,
sua ausência
De repente, se
finda uma vida
De repente,
a solidão
e
De repente, se
acostuma
De repente, se
solidifica
De repente, se
petrifica
De repente,
não tão de repente
De repente, outro
amor
De repente,
outra dor
De repente, não
se acostuma
De repente,
não mais se satisfaz
De repente,
outra separação
De repente, “tudo
dói”
[Citações:
Vinícius de Moraes, "Poema de Natal"
Caetano Veloso, "Tudo Dói"]
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Poesia: Tarde em Mangue Seco
Tarde em Mangue Seco
[Mateus Almeida Cunha]
Mar, maresia, uma miragem.
A água salgada sob o Sol reflete o dia
em movimento com as ondas a nos embalar
e transcender à paisagem estática
que lentamente carrega as nuvens que sombreiam os corpos seminus
que sentem a fina areia fria sob os pés descalços.
Percauços.
As ondas, de espumas brancas,
misturam-se em cores com o azul-marinho
e dissolvem as esculturas de areia
que as crianças formam, tao disformes,
ao longe, ao mar,
Ah, amar
As esculturas
estão constantemete a desconstruirem-se,
com o embalo sutil das ondas
que lhe levam sua matéria-prima,
areia
Não há relógios a contar o que está a ocorrer,
cujo tempo parece permanecer estático, nulo, único,
para deleitarmo-nos, enquanto carros e assaltos e motos e bancos e lojas e avenidas
enchem as cidades que fugimos.
A água salgada sob o Sol reflete o dia
em movimento com as ondas a nos embalar
e transcender à paisagem estática
que lentamente carrega as nuvens que sombreiam os corpos seminus
que sentem a fina areia fria sob os pés descalços.
Percauços.
As ondas, de espumas brancas,
misturam-se em cores com o azul-marinho
e dissolvem as esculturas de areia
que as crianças formam, tao disformes,
ao longe, ao mar,
Ah, amar
As esculturas
estão constantemete a desconstruirem-se,
com o embalo sutil das ondas
que lhe levam sua matéria-prima,
areia
Não há relógios a contar o que está a ocorrer,
cujo tempo parece permanecer estático, nulo, único,
para deleitarmo-nos, enquanto carros e assaltos e motos e bancos e lojas e avenidas
enchem as cidades que fugimos.
[Feito em Mangue Seco, numa tarde na praia]
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sexta-feira, 6 de abril de 2012
Poesia: Sobre o Amor I
SOBRE O
AMOR I
[Mateus Almeida Cunha]
[Mateus Almeida Cunha]
Na vastidão
da plenitude,
o amor
Aquilo que
nada se sabe.
Aquilo que
tudo se sente.
Aquilo que
nada ressente.
Na imensidão
da quietude,
o amor
Aquilo, de
dentro, emoção.
Aquilo que
poucos sentirão.
Aquilo que vibra,
pulsação.
Entre
poucos, se ama.
Na amplidão,
o amor não trai.
Entre
tantos, se ama.
Na amplidão,
o amor não se esvai.
Entretanto,
se ama.
Na amplidão,
o amor .
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Sobre o Amor
Ensaio: Homenagem aos Pais
Ensaio: Homenagem aos Pais
[Mateus Almeida Cunha]
Pois que nada disso haveria se
eles não existissem. Pois que nós não existiríamos, se não fosse por eles. É a
quem devemos as nossas vidas e a quem devemos agradecer. A quem nos gerou e nos
acompanhou ao longo de todos esses anos. A quem nos ensinou a ser quem somos. A
quem nos disse que a vida não seria fácil, mas é verdade também que nunca nos
disseram que seria tão difícil...
Devemos agradecer por, diante de
tantas dificuldades, diante de tantas escolhas, escolheram priorizar a nossa
educação e por terem escolhido nos amar. Se, por algumas vezes, tivemos dúvida
de como conduziram as coisas e se acreditamos que erraram, foi com a certeza de
que fizeram o melhor que poderiam ter feito. E se, porque erraram, foi com a certeza
que estavam fazendo o melhor, e isso basta. Por terem sido nosso exemplo de
vida e por nos sentirmos orgulhosos de os termos como pais.
Por terem nos dado forças e terem
acreditado no que fizemos (ou fazemos), mesmo quando ainda nos restava alguma
dúvida. Ou, mesmo quando não aceitando nossas escolhas, as respeitaram por nos
amarem. Quando acreditaram em nós, mesmo quando nós mesmos não tínhamos certeza
de nada e, mesmo que por algum instante, pensamos em desistir de tudo ou de
parte do que já havíamos conquistado. Por nos terem dado força e estímulo, por
nos terem feito fortes, por nos apoiarem. Pais, obrigado por tudo.
[Escrito por encomenda, a pedido de Tiana Sampaio]
[Escrito por encomenda, a pedido de Tiana Sampaio]
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Mateus Almeida Cunha
Ensaio Sobre a Afinidade
ENSAIO
SOBRE A AFINIDADE
[Mateus Almeida Cunha]
Conhece-se. Gosta-se. Convive-se. Decerto
que nem sempre as coisas ocorrem assim. Talvez pela ausência de afinidade.
Afinidade. Como defini-la? Talvez afinidade seja aquilo que se sente com alguém
que se gosta, tal qual a empatia. Tal qual um querer. Tal qual um estar perto,
fazer-lhe bem, convidar-lhe ao convívio. Como se não precisassem falar, e seus
assuntos fluíssem de forma “averbal” (com o perdão do neologismo). Como se se
soubesse o que o outro diz, gosta, faz, sente, reage. Como se não se precisasse
mentir. Como se sempre se despissem verbalmente, numa enxurrada de pensamentos
indizíveis. Afinar-se. Completar-se. Refugiar-se. Como se se soubesse de tudo
e, ainda assim, houvesse algo para completar. Não possuir um ponto final. Viver
em ponto de seguimento infinito. Viver em vírgulas, em reticências e gostar das
exclamações. E quantas! Oh, quantas!
“Amigos
não se faz, se reconhece”
[Vinícius de Moraes]. Afinidade não se busca, se possui, muito antes mesmo de
se tê-la. Afinidade é algo que atrai, que marca, que seca, que pesa. Afinidade
é saber conviver. É saber entender. É saber respeitar. É saber quando opinar. É
saber o que opinar. Afinidade pode ser um hiato de meses sem comunicação devido
a alguma ausência e, quando da presença, uma verborragia como se houvessem
conversado no dia anterior, na hora anterior, ou mesmo se nunca tivesse tido
separação. Afinidade é ter fluência. Enfim, afinidade é fluir-se em outrem.
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Mateus Almeida Cunha
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Crônica: Uma Horda de Inconsequentes e Incompetentes
UMA HORDA DE INCONSEQUENTES E INCOMPETENTES:
SOBRE A GREVE DA PM-BA (2012)
[Mateus Almeida Cunha]
Se, por um lado, a Constituição Federal Brasileira garante a todos o Direito a greve, essa atitude legal (apesar de ser imoral) dos Policiais Militares baianos, em seu 9º dia, causou nada mais que 132 assassinatos (registrados), mais de 200 roubos de veículos (registrados), dezenas de arrastões, prejuízos estimados em R$ 400 milhões além de terror psicológico na população.
Há de se ter consciência que, em muitas vezes, apesar de certas ações/atitudes serem legais, não significa que sejam morais ou tampouco dignas de elogios. Quando se escolhe uma profissão, deve-se abraçar a sua causa máxima. Os policiais têm a importantíssima função de proteger a população, manter e garantir a ordem (ao menos isso), o que não vem sendo feito. Policiais, médicos, bombeiros (e outros que agora não tenho capacidade de lembrar) não podem em hipótese alguma fazer greve. Suas ações (ou falta delas) põem vidas em risco ou, pior, induzem à morte. Qual classe profissional pode (legalmente) se afastar de suas funções (entenda: fazer greve) fortemente armada? Isso é abuso de poder. O Supremo Tribunal Federal (STF) afirma que os servidores públicos têm direito à greve, mas esse direito não é válido para serviços públicos realizados por grupos armados, tais como policiais civis e militares!
Apesar de também ser algo legal (porém imoral) a greve dos rodoviários também é repudiável por gerar o caos em toda uma cidade, impedindo a todos o direito de ir e vir assegurado na Constituição Federal. Bom, sob esse aspecto, portanto, me parece ser inconstitucional, mas isso não vem ao caso. O que deve ser destacado é que a greve dos rodoviários, por exemplo, não é responsável pelo assassinato de pessoas, roubo de veículos nem arrastões. A greve (arruaceira) de estudantes também não provoca homicídios. A propósito, por falar em estudantes, os PM puderam atirar contra eles, com projéteis de borracha numa das greves que ocorreu, “para manter a ordem”. Entretanto foi dita condenável, pelos PM, a tática usada pelo Exército para “restabelecer a ordem”, usando o mesmo tipo de arma com projéteis de borracha. É estranho se pensar que PM pode atirar em estudante, mas o Exército e/ou a Força Nacional não pode atirar na PM.
São sabidas as condições de risco que os policiais estão sendo expostos diariamente para assegurar a nossa integridade física (e também psicológica), bem como as deficiências existentes em qualquer setor e majoradas na área de Segurança Pública (falta de coletes, viaturas, armamento, dentre outras tantas). Mas, isso não é motivo de serem cúmplices de assassinatos coletivos e manifestação de terror à população. É... o Poder Executivo, com sua horda de policiais, parece mesmo estar conseguindo realizar a “execução”... mas, dessa vez, dezenas de pessoas...
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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Ensaio: Nós Não Somos... Quem Somos: Somos Aquilo Que Fizeram de Nós
NÓS NÃO SOMOS... QUEM SOMOS: SOMOS AQUILO QUE FIZERAM DE NÓS
[Mateus Almeida Cunha]
Somos temporalidade e culturalidade. Somos o que somos ou, melhor, quem somos, por questões temporais e culturais. Aos poucos, tornamo-nos seres. A realidade que temos (ou cremos) não foi por nós construída, mas nos foram atribuídas, muitas vezes sem questionamentos. E, a ausência de questionamentos, transforma-as em dogmas. Não há questionamentos para essas verdades. Mas por que não as temos? Por que não as criamos? Aceitamos, por medo de parecermos estranhos num grupo sociocultural que nascemos. E o medo faz parte do nosso instinto ancestral de sobrevivência. Porque sem os medos, degradaríamos (e destruiríamos) a nossa própria vida. Poderíamos subir sem o medo da queda ou poderíamos nadar até exaurirem-se nossas forças até o afogamento eminente.
Somos temporalidade porque se nascêssemos em outra época não seríamos quem somos. E somos culturalidade porque somos quem somos graças ao que nos é transmitido. Portanto, somos instante e cultura. Se tivéssemos nascido há alguns bons anos, seríamos especialistas em datilografia e não teríamos nenhum tipo de conhecimento em informática, já que esta não era de domínio popular. E se, ao contrário, nascêssemos daqui a muitos anos poderemos ter (ou desenvolver) habilidades que não temos (ainda) e talvez não consigamos nem supor tê-las. O fato de não termos nascido homens fortes na Roma Antiga deixou-nos o (anti-)legado de não sermos gladiadores, bárbaros e, por algumas vezes, primitivos. E se os fôssemos, poderíamos ser fortemente exaltados, reconhecidos e dignificados pelo fato de sabermos matar. E, nessa mesma Roma, a presença de uma deficiência física seria responsável por sermos assassinados ainda crianças, lançados de penhascos por não podermos servir ao seu Exército, tamanha era a sua crueldade com os que não lhe serviriam. Porque poderíamos fazer orgias sexuais com naturalidade que, muitas vezes, hoje, ainda são vistas com maus-olhos porque isso ainda não é aceito explicitamente. Seríamos politeístas, faríamos oferendas. Seríamos tão diferentes...
Ao longo dos anos tornamo-nos hipócritas. Porque somos politicamente polidos a chamar as putas, de profissionais de sexo, ainda que o nosso pensamento primário venha a ter a palavra pu-ta. Sim, putas. Que mal há em dizer algo exatamente da forma em que pensamos a forma da palavra? Porque somos forçados (obrigatoriamente e necessariamente) a padronizarmos nosso vocábulo, torná-lo culto, entendível e politicamente correto. Não chamamos mais os pretos de cor de pele, de pretos, mas ascendemos uma cor a uma cultura e os chamamos de afrodescendentes. E não nos esqueçamos que somos pretos e brancos e vermelhos e amarelos. Prefiro dizer que somos seres, apenas, porque não há mais raças. Há seres, apenas, e isso basta.
Torna-se muito claro, portanto, a fragilidade na qual estamos submetidos quando da nossa fase de entendimento de mundo e autoentendimento. Qual a nossa autenticidade? Quanto do nosso pensamento é, de fato, nosso, e quanto dele foi-nos transmitido e moldado? Porque engolimos as convenções sociais, as leis, os mitos, os dogmas, o conceito de ética. Mas, muitas vezes, apesar de engolirmos tudo isso, não digerimos. Entalamos, vomitamos e temos novamente de engolir. Essa é a vida tal como ela é. Basta abrir os olhos. Mas, cuidado, não os abras demais, pois podes cegar-se. Mascaram-nos e mascaramo-nos. No fundo, somos fruto do que querem que sejamos.
Nós não somos, portanto, quem somos, porque somos aquilo que fizeram de nós. O que nos passaram, moldaram, cuspiram, ensinaram, reiteraram, confirmaram, negaram, confundiram, sacanearam, dignificaram e, por fim, o óbvio: o que querem, de fato, que sejamos. Somos esses outros serem cobertos de máscaras sociais multifacetadas para o escritório, as férias, a família, os amigos, o seu íntimo, que nos querem. O nosso próprio íntimo. O que nos faz fortes e nos decepciona. O que nos empalidece. O que nos fortifica. O que nos dignifica? Um brinquedo a ser doado no Natal? Um pacote de arroz a ser doado numa campanha beneficente às vítimas de enchente? Um colchão velho e que nos é inútil a um desabrigado? Fazer uma apresentação de coral num asilo no dia do idoso? Comprar flores e dar às mulheres no seu dia? Encher nossos infantes de doces e brinquedos eletroeletrônicos no Dia das Crianças? O que nos faz felizes? O que é felicidade? O que é ser feliz? Ser feliz é estar. Estar? Sim. Estar. Estar bem, sentir-se bem, fazer-se bem e fazer o bem. Isso pode ser um passo para a felicidade. Mas não nos esqueçamos do autoconhecimento. Do saber o que se gosta, o que se é e o que se quer. Isso esbarra profundamente no que querem que gostemos, que querem que sejamos e que achem que queremos.
Tiremos, então, as máscaras e mostremo-nos quem somos. Mas, cuidado, a máscara pode estar a tanto tempo fixada-lhe à face que não seja mais possível arrancá-la. Ou, se arrancá-la, pode ficar com marcas profundas, causados por si mesmo. Pelo que gostaria de ser, e não o é, ou, pior, pelo que queriam que fôssemos. Fernando Pessoa escreveu, certa vez: “Fiz de mim o que não soube, e o que podia fazer de mim não o fiz”. Façamos, então, o que podemos fazer para nos mostrar. Mostremo-nos. arranquemos as máscaras e saiamos do palco. Corta!
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Ensaio: Sobre a Palavra (ou Sobre Uma Palavra)
ENSAIO: SOBRE A PALAVRA (OU SOBRE UMA PALAVRA)
[Mateus Almeida Cunha]
"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos"
[Carlos Drummond de Andrade]
Uma palavra, muitas vezes, é tudo o que se quer ouvir. Na verdade, é apenas o que se quer escutar. Apenas uma palavra, sim: uma palavra. Aquela palavra não dita. Aquilo que o próprio silêncio se encarrega de contar, quando o óbvio é mesmo óbvio e o indizível toma conta de todo o ser. A não-palavra. E, quando se deve calar, surge aquela palavra. Quando se quer calar: uma palavra. Quando não se deve calar, nenhuma palavra. Apenas uma palavra para se fazer feliz, para enaltecer. Também há aquela palavra que faz entristecer e, dela, melhor nada ser dito. Quero que digam-me palavras belas em doses homeopáticas sempre pelas manhãs para que, ao acordar, sinta-me amado e também ao final do dia para que, ao dormir, sinta-me reconfortado.
Quanto tempo dura o silêncio? Não me venham com a palavra escrita cheia de normalismos ou formalismos, porque eu quero mesmo é a palavraverdade, a palavrassorte e a palavramor. Todas assim, ditas como se tudo fosse tudojunto, sem pontuação, sem som, sem ordem, sem melodia. Quero essa palavratrêmula a vibrar as cordas vocais do narrador e reverberar meus tímpanos. Bum... bum... um... um... hum... hum... m... m... Retumbantes sons reverberando na caixa craniana a banhar-me se sensações orgásmicas: o neologismo. Surpreenda-me com a palavrainexistente, a não-grafia, como um soco a penetrar-me perante o desconhecido. Como uma palavraenormeamepenetrar e me entalar com que ouvi e não consegui decifrar. Como um vômito da palavrassincera. Neologismos necessários. Surpreenda-me: ashs gasm razm fazmem dzárguem. Oh sim, como lhe escuto. Não ouso compreender, mas prometo escutar-lhe. E quando eu digo lhe escuto é porque soa melhor que o te escuto, que parece afastar-nos. Juro guardar o seu sibilar sonoro sincero em suaves e solitárias emoções a surpreenderem-me em um único nós. Porque assim não estaremos sós, com a palavrajunto. E não ouse pronunciar a palavrerrada para que tudo se finde.
E não me canso de inventar a palavrencantada: contarei ûma istória a algúmas crianssas que não saybam ex-crever. Num reino tão-u diztante e muinto longe daqui vivia umafada. Umafadamuinto linda que çonhava encontrar um príncipe emcantado para cazar e... Eu poderia fazê-las muito felizes. Porque não se é feliz: está-se. Está-se feliz. E se for apenas uma história oral, elas nunca saberão que meus rabiscos que a fizeram felizes por instantes carregam palavras que, em si, em sua carne, não se sustentam na ortografia. Porque aqui, permito-me. Porque aqui permito-me ser-e-escrever comoquizer umacertesa: serei lido e, melhor, compreendido. De que me vale a forma? De que vale a padronização para se viver se mesmo sem pontuação e sem métrica e sem rima e sem respiração com a repetição dos dias é que vivemos e repetimos e repetimos e repetimos e se vive e se entende e ainda assim sem fôlego toma-se fôlego e entende-se o que deve ser entendido porque a maldita forma da palavra dita essa palavra mal dita ou melhor essa palavra maldita pode arrancar lágrimas e sangue e silêncio e solidão e esse corre-corre dos nossos dias que nos faz deixar de pensar o que fizemos hoje e ontem e anteontem e trasanteontem e na semana passada e no mês passado e sabemos apenas que houve Natal e Dia das Crianças e Dia dos Pais e São João e Dia das Mães e Páscoa e Carnaval e Natal e Dia das Crianças e começamos e recomeçamos e terminamos e ciclotizamos e cansamo-nos e dormimos e sempre cansamos e cansamos e cansamos e enjoamos e dormimos. Ufa! Mas a verdade é que cansamos. E cansamos de nossas vidas. Ah, como cansamos. E aqueles que acham que não estão cansados, ai desses... Tsc tsc tsc... É preciso ouvi-los com a alma, pois eis que não sabem dizer a verdade ou, pior, não a ousam. Porque a verdade dói e é cruel: crudelíssima.
Em sua essência a palavravida é que nos move. A palavramor é que nos reconforta. A palavradistração é que nos faz felizes. A palavrarrespeito nos torna humanos e a palavrahumilhação, a tragédia de nossas vidas. E ainda assim rezam. E como rezam para que, como num ato de desespero, como uma última esperança (pois é ela – e apenas ela – que resta) sejam ouvidos. E assim a palavrarreza nasceu não se sabe quando, nem onde, em ladainhas desde os primórdios. Sabe-se apenas por quê. Talvez porque sejamos incompletos ou, pior, queiramos estar incompletos. E isso basta. Porque deixamos a palavrassilêncio fluir e, em sua seiva, ela carregará a palavrassom e nos carregará, em matéria de carne e osso para o sepulcro na palavrador. Mas não nos deixar cair em tentação e livrai-nos de todo o mal.
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