sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Ensaio: Sobre Ser e Estar ou A Metamorfose da Vida

Sobre Ser e Estar ou A Metamorfose da Vida
(Mateus Almeida Cunha)


Sim, eu carrego comigo essa dor e essa dúvida de ser ou de estar. Na verdade, de ser e de estar. Ser? Estar? Sim, a dúvida de ser eu, de ser humano, de ser racional diante de tanta irracionalidade que me permeia e tantas outras coisas que não saberia dizer: apenas sentir. A dúvida de estar: estar num mundo errado ou viver num tempo errado. É preciso, mais que viver, sentir a essência da vida. Porque existem pessoas DO mundo e pessoas NO mundo. Eu não pertenço ao grupo das pessoas do mundo, posto mesmo que estou aqui de passagem. Mais que conflitos, alucinações. Mais que verdades, mazelas sagazes. Mais que angústias, miragens. Mais que viver, sentir. Estar. Ficar. Estar. Esperar. Estar. Fincar. Estar.

E como um passageiro que percebe, após uma longa viagem, estar no vôo errado, eu tento retroceder. Não retrocedo. Fujo das coisas, de mim, e me calo frente aos acontecimentos que nunca cri existirem e nunca supus controlar. Porque viver dói e sentir a vida dá taquicardia tal qual a espera da morte do paciente terminal, pela família. Eles se encontram e choram. Eles rezam, mas eu não sei rezar. A linha tênue que liga a vida à morte me espreita sorrateira por meses contínuos. É bem verdade que, às vezes, ela afrouxa e dá uma trela aos acontecimentos de mim mesmo. E isso me basta para descansar. E penso ter curado, mas cura não há. Eu tento fugir: eu não fujo. Eu tento sumir: eu não sumo. Eu tento morrer: morte não há.

Hoje, apenas observo o jardim que tem vida e dá vida. Ele é verde, entre tanto marrom-barrento por sua volta. Entre tantos indícios do pó primordial que nunca cri sua existência, senão que um mero mito. As folhas me encantam e atraem de tal forma que não consigo pensar em outras coisas, senão às minhas mesmo. É engraçado e, no mínimo estranho, pensar que a folha que hoje observo não existia há um mês e não existirá daqui a um mês. Tal qual a passagem do tempo se torna cruel. Mas como senti-la, senão quando se comparam fatos que nos atraem? Como sentir a vida lhe pulsar pelo sangue que circula, senão quando lhe fere a pele e o fluido escarlate escorre? Uma folha viçosa, com o brilho da própria luz do dia a lhe refletir num processo que nem a química fotossintética mais pura saberia descrever a equação da beleza. Talvez, algum desses grandes gênios do Renascimento pudesse detalhá-la minuciosamente de tal forma numa pintura tão real que a própria tinta fugisse mais da tela do que o próprio brilho da sua essência. Não sei se uma tela poderia reproduzi-la tão fielmente, já que a interpretação que possuo ao olhá-lo pode-se dizer que seja primária. A do artista seria uma outra interpretação primária, própria da sua criação e inspiração momentâneas, e eu faria um interpretação secundária da interpretação primária da figura original. Não. Isso não é difícil de se entender e nem sei mesmo porque detalhar uma observação tão fútil e coerente da realidade, já que o pensamento nos faz donos do próprio pensar-existir. Penso, logo existo. Essa frase não é minha, mas estou apoderando-me dela de tal forma que poderia escrevê-la em qualquer texto de minha autoria que, se não fosse consagrada pelo uso entre os filósofos e intelectuais, poderia dar-me a sua autoria. Não, acho que não quero tê-la como minha, já que se fosse minha ela não teria tanto sentido para mim, mas sim para os que a apreciassem e ela se perderia de mim, tal como se perdeu desse pensador. Talvez porque a existência pseudo-desconhecida das coisas nos dê uma excitação de posse muito maior que a própria satisfação do ato da criação concluída. Ela não me pertence, mas a partir de hoje será minha. E quando se toma algo como seu, primeiramente é preciso acreditar que aquilo lhe pertence, para só depois fazer os outros acreditarem. Quando se cria uma mentira é preciso fazê-la tão bem que você mesmo seja capaz de acreditar na sua existência e refutar veementemente qualquer criatura que tente desmerecer o seu crédito.

Aquela folha que, entre tantos milhares de outras, observo não sabe da minha existência. Nunca pedi que soubesse da minha existência, mas se ao menos a observo por alguns instantes, o mais justo seria ter a sua retribuição. Pensando (mentindo) apenas para mim mesmo que a folha pode estar também me observando atenta e fazendo suposições do que fui, sou e serei, é bem verdade que isso me anima. Pouco abaixo do seu talo, observo uma forma tão disforme, ao longe, da minha posição de observador reflexivo-enigmático que não serei capaz de dizer o que se trata. Possui uma forma delgada e alongada com uma coloração que se assemelha ao próprio caule do vegetal, e que não lhe pertence. Ou melhor, pode até pertencê-lo, uma vez que está unida (aparentemente) de tal forma como uma anomalia vegetal. Porque isso me intriga. Por que isso me intriga? Com o olhar aguçado que só a curiosidade é capaz de produzir identifico que se trata de um casulo. Seria uma borboleta a se esconder, entre tantas outras árvores no mundo, no meu jardim? Um borboleta a, quando se metamorfosear, farfalhar no meu jardim. É impressionante como esses seres conseguem suportar a sua existência. Sim, porque eles se suportam. E isso é tão verdadeiro que, ficam num casulo, escuro, privados da visão do mundo a observar apenas para o seu próprio eu. E depois de um largo período, talvez uma grande epifania faça-os mudar para poder suportar o mundo. O seu mundo. O meu mundo. O nosso mundo. E quando mais tarde lhe ressurgir a vida, será forte o suficiente para se libertar de sua própria prisão, bater as asas tão frágeis e diminutas e ser capaz de levantar vôo. Será capaz? E como será capaz de ver o seu casulo pelo lado externo, após um período de tanta tê-lo visto (e vivido) internamente? Nos metamorfoseamos a cada dia.  

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