terça-feira, 1 de março de 2011

Ensaio: Surto Psicótico



Ensaio: Surto Psicótico
Mateus Almeida Cunha



Náuseas. Além dos fatores físicos, limitadores na sua própria existência, havia uma tremenda vontade de vomitar a se próprio, de forma verborrágica e explosiva. Como um grito de socorro: um grito de independência. A plenitude da liberdade explícita. Por que o óbvio é óbvio, mas pouco se sabe ou pouco se quer saber. E, nesse momento, o vômito físico lhe surge como alternativa expressiva do próprio corpo que não se consegue libertar. Um grito no ar.

Duas da madrugada. Acorda como se houvesse dormido por toda a noite, com a sensação de cansaço físico, mas sem sono. Abre os olhos e uma surpresa: tontura, vertigens... Fecha-os novamente e suas próprias pálpebras parecem movimentar-se como círculos de um inferno dantesco que lhe faz pensar que, enfim, a loucura havia-lhe chegado. Abre os olhos novamente, enquanto passa a mão no rosto. Mal consegue coçar os olhos: suas mãos tremem, seus braços tremem e sua coordenação motora está comprometida. Dobra os joelhos para levantar as pernas que tremem como dum cansaço físico do próprio corpo que carrega. Um grande fardo a (se) suportar.

Duas e vinte. Agora lhe vem o medo de levantar, o medo de ter acordado, o medo de não conseguir dormir, o medo de não se curar, o medo da vertigem não passar. O coração começa a descompassar-se numa terrível taquicardia. Parece-lhe que seu próprio corpo sairá do corpo, como que expulso de si próprio. Vem-lhe então o súbito pensamento de que tudo aquilo não passa de um efeito psicológico. Tenta convencer-se disso, mas não há convencimento. Levanta e vai até a cozinha buscar um copo d’água. O caminho é cruel a o corredor torna-se estreito demais para a passagem. Esbarra-se nas paredes e se segura para não cair: medo.

Volta para o quarto com medo da morte, mas morte não há. Só gostaria de dormir, mas sono não há. Suores, vertigens, alucinações, tremores, temores e náuseas lhe acompanham pelas próximas três horas no silêncio frio da madrugada enquanto lembra-se do maldito remédio tomado no início da noite. Enfim, consegue dormir. Ao acordar, duas horas depois, os tremores corporais ainda se arrastam pela manhã. Mas a náusea (talvez de si mesmo) ainda lhe acompanha ao longo dos dias, até que consiga vomitar o próprio corpo numa expressão própria indizível.



domingo, 20 de fevereiro de 2011

Poesia - Sobre a Solidão II

Sobre a Solidão II
(Mateus Almeida Cunha)


Solidão :
É o pedaço de si que lhe falta e mais lhe dói
É um pedaço que, inexistente, corrói.

É estar, em parte, incompleto
É não sentir-se, em si, repleto.

É perder-se em meio a tantos
É perder-se em seus cantos.

É perder-se em emoções,
É um abismo de sensações.

É sentir, no fundo, algo a lhe dilacerar,
É sentir, lá dentro, espedaçar.

É não encontrar sua salvação,
É, na verdade, sofrer em vão.

É calar-se, na hora do grito,
É não lhe ser suficente,
É desfazer-se
em si.

Poesia - Sobre a Solidão I

Sobre a Solidão I
(Mateus Almeida Cunha)


Solidão:
uma cacto que brota do vazio,
em meio a seu deserto de si.

Em meio a tantos outros,
entre flores, rebenta.

Seria uma flor a se esconder
entre os espinhos?

Mesmo entre tantos outros,
definha, sofre, sente.

Defende-se, refém de si:
angústia da sua solidão.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Conto: Os Três Amantes

Os Três Amantes
(Mateus Almeida Cunha)


Quando se fala (e se pensa) em amor é inevitável deixar de associar a cena da paixão a algum casalzinho jovem que, entre tantos outros, se abraçam, se beijam e se amam avidamente, com o desejo de se devorarem. Pouco importa quem sejam ou onde estejam. Aqueles dois que há tanto se conheciam, desde cedo, colegas de classe, amigos íntimos...

Quando crianças, nunca houve beijos, ou mãos a se tocar vagarosamente, posto que a timidez não permitia. E não era de se estranhar que, entre tantos meninos e meninas na escola, nada havia acontecido durante muito tempo. E, quando o sinal soava, ao Sol do meio-dia, todas aquelas crianças corriam loucamente (e destrambelhadamente) pelos estreitos corredores. Não pareciam nem um pouco diferentes do comportamento animal, muito próximo das manadas. As mochilas a voar pelos corredores, arremessadas ao chão, às paredes, ao teto, aos outros colegas... o tumulto histérico do corre-corre para ver quem sairia primeiro e seria o campeão do dia, os empurrões e nenhuma preocupação a lhes perturbar. Assim foi a infância. 

A adolescência chegou e tudo começou a mudar. Sim, aqueles olhares eram mais penetrantes e flertivos entre ele e ela, as conversas eram mais demoradas e não havia mais corre-corre (pelo menos entre os da sua idade) no término das aulas. Começavam então a arranjar motivos para se tocar, de forma discreta, já que seu próprio corpo não mais lhes satisfazia. E sabiam que o seu prazer, refletido no desejo, só haveria de saciar-se completamente com o outro corpo: a descoberta do próprio corpo, no outro corpo.

A descoberta do próprio corpo com outro corpo, parecia-lhes cada vez mais, em segredo, ser uma penitência nos seus dias. Ah, era cada vez, secretamente, sede da própria sede. Conversar, rir, passear, não lhes bastava mais: era preciso experimentar. E mesmo sem dizer palavras, sabiam que se amavam e queriam satisfazer-se plenamente, provando do fluido responsável pela digestão, que molhava os lábios. Era preciso deixar-se sucumbir ao fato de que não se pode viver sem amar e seus corpos, em formas atraentemente definidas lhes despertavam o erotismo.

E como uma árvore a se desenvolver, cujas flores já anunciavam a safra de frutas que viriam, resolveram provar do fruto. Talvez o fruto proibido em sua idade quase adulta. Estavam a sós e conversavam sobre tudo (e nada) de uma só vez, numa verborragia inexpressível. De repente, como numa música erudita que pausa no instante crucial, não havia mais o que dizer, pois tudo já havia sido dito: o não-dito. Mal dito. Maldito.

Se olharam... entreolharam... sorriram timidamente... e disfarçaram o olhar. Era inevitável! Seus olhos se procuraram em olhares introspectivos, dilacerantes: de-vo-ra-do-res. A face não mais lhes transmitia o sorriso, mas um ar sério e penetrante como a própria treva a emanar uma luz própria que surgia. O silêncio entre o som e o não-som. A dúvida entre a verdade que se mostrava explícita, desnudada, cara a cara.

O que fazer? O que fazer? O que... fazer. Ah, sim, não havia mais ninguém a lhes observar e a lhes censurar. Poderiam fazer qualquer coisa, mas não estavam certos, apesar do amor a lhes seduzir. Na parede, a continuação dos segundos que passavam no relógio que insistia em emitir leves estalidos, obra duma madeira velha numa engenhoca mecânica com pouca manutenção. Tic-tac. O tempo passava, mas seus corações, em fúria, pareciam funcionar por toda a eternidade. A seriedade expressa em suas faces rubras se transformava lentamente em... em... em quê? Não saberia dizer o que é que ocorre nessas horas.

Tic-tac. Os corpos começaram a se debruçar, como num magnetismo atrativo a lhes trazer para mais perto. Tic-tac. O relógio não contava mais as horas: seu tempo era etéreo. Iam debruçando-se, se aproximando inteiramente: era o que queriam. Era o que queriam? Tic-tac. Parecia não findar. As faces a se inclinar, num sincronismo perfeito, não ensaiado, a se aproximar mais e mais. estavam sedentos. Transpiravam. Os lábios se tocaram, a excitação máxima começou a estabilizar-se e agora parecia ser mais fácil que antes.

Tic-tac. As mãos a se encontrarem, ainda perdidas, nas outras mãos, nas outras costas e pescoços e braços e coxas e mãos novamente a deslizarem sem pudor no que, de fato, não lhes pertencia. Os corpos a se encostarem de verdade, a sentir o calor do outro a lhe estremecer. A respiração forte. Os lábios que não paravam por um segundo sequer, há anos desencontrados... E por quê, se era o que queriam? 

Tique-taque: o relógio era mais lento, não emitia mais o mesmo som. Eles não percebiam, mas sentiam que o tempo agora era a favor da sua vontade. Não foi falado mais nada: sabiam o que queriam. O tempo estava a lhes pertencer: tique-taque. Os dois amantes. Tique-taque. Estavam sedentos do sabor que nunca houvera sido degustado. A própria carne a roçar a outra carne e vice-versa. As mãos, despudoradas, a ajudar a lhes despir. Tique-taque. Um corpo contra o outro corpo, os dois corpos nus, os dois amantes em um. E o tempo, a lhes amar como um terceiro amante a não permitir que aquilo findasse.






domingo, 16 de janeiro de 2011

Ensaio: A Dança do Acasalamento no Século XXI - Horácio A.E.

Me agradou muito receber esse texto, na verdade um ensaio, de um(a) conhecido(a) que não gostaria de ser identificado(a). Concordo plenamente com o texto. Há algumas palavras que talvez sejam inadequadas para a publicação (pelo menos eu creio que não as escreveria em sã consciência), mas isso não importa. O que importa é o conteúdo.





A Dança do Acasalamento no Século XXI
(Horácio A.E.)


Todos os animais acasalam. Os humanos são animais. Partindo-se de um raciocínio dedutivo, logo, acasalamos também. Entretanto, alguns animais (irracionais) procedem a uma dança de acasalamento para chamar a sua parceira (ou o seu parceiro) para a atividade sexual. E isso não difere do que é realizado no nosso meio, principalmente entre os jovens (que se encontram no período fértil e no auge da virilidade).

O que fazem os jovens antes de sair de casa para paquerar? Tomam banho, arrumam-se, maqueiam-se, colocam um bom perfume e saem cheios de vontade para a night pra ver o que é que tá rolando. Chegando na boate (ou no barzinho), encontram os amigos... os amigos dos amigos... as amigas... as amigas das amigas... alguns conhecidos "de vista"... fazem novos contatos... Olham, flertam, bebem, dançam. É como se a bebida fosse, de alguma forma, um símbolo da juventude e do ápice de "estou gostando daqui". Como se aquilo fosse um prolongamento da casa.

Em nada, ou em muito pouco, difere do resto do mundo animal. Os homens ficam no canto, aos poucos mostrando o seu charme (depois de algumas doses leves de álcool, para socializar) para as mulheres que, como se não quisessem, procuram escolher um parceiro que possivelmente lhe proporcionará um bom prazer carnal (ainda que o sexo não se efetive, mas os preliminares contam!).   

Por que, apesar de um provável bom pai, não dar a chance para aquele lunático nerd esquisitão magricela? Porque ele não serve para lhes saciar a vontade. Por isso, escolhem aqueles que exalam mais hormônios, com mais cara de machos, prontos para investir em sua presa. Eles foram mais treinados, eles sabem lhes satisfazer.

O mesmo ocorre com os homens. Por que não escolher aquela mulher tímida, escondida entre suas duas gostosas (e peitudas) amigas? Porque ela não teve a capacidade de mostrar-se como fêmea, como uma provável pervertida sexual a lhes satisfazer completamente até levá-los ao delírio.

Até mesmo as putas (ou melhor, profissionais do sexo) possuem toda a sua malícia do acasalamento. E essas putas oferecem seus corpos e esfregam-se nos machos potenciais. Não pelo seu prazer. Isso não. Mas por fazê-los enlouquecer e querer mais e mais e se tornarem escravos do seu corpo, ainda que para isso tenham de pagar.

Os adolescentes, rapazes, como verdadeiros pavões, estufam os peitos, colocam um creme ou gel no cabelo, uma camisa coladinha onde se possam ver seus músculos (recém-adquiridos na academia do prédio, ao malhar com os amigos) e saem. Vão, aos poucos, nas festas que lhes são permitidas, chegando ao centro. Começam a insinuar uma dança, lançam olhares, oferecem bebidas (que não deveriam estar bebendo) e partem também para o ataque. Aquele que dança melhor, pode ser um potencial alvo para as moças que os observam.

E assim, aos poucos, percebemos que não somos tão diferentes dos demais animais quanto acreditávamos. A dança do acasalamento ainda impera no século XXI.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Poesia: Sobre a Saudade I

Já publiquei aqui no blog alguns outros poemas meus, também intitulados "Sobre a Saudade". Acho que já foram publicados, além desse, o "Sobre a Saudade II" e o "Sobre a Saudade IV" (que tenho um carinho muito especial). Os outros podem ser encontrados no marcador que está no menu lateral direito, com o nome "Sobre a Saudade". Espero que gostem!





Sobre a Saudade I
(Mateus Almeida Cunha)



A saudade dói,
mas a grande dor é mesmo lhe perder de mim
E isso dá tal taquicardia
como uma chama a flamejar
e, num ímpeto, se apagar
a levar consigo todas as respostas suas, cruas
numa luz radiante a privar-me da visão
de um espelho a mentir sobre a sua imagem,
reflexo de mim.

Uma imagem deformada e frágil,
a se esconder diante dos olhares
que lhe secam as palavras
capazes de exprimir minha dor.



A saudade corrói,
mas a grande dor é mesmo se perder de si
E isso dá tal paralisia
como uma chama a se apagar
e, num ímpeto, se evolar
a trazer comigo todas as respostas cruas, nuas
numa cruz perfurante a matar-me na solidão:
um espelho a não mentir sobre essa imagem,
miragem de mim.



Uma imagem disforme e débil,
a me mostrar diante dos olhares
que me expõem às palavras
incapazes de exprimir como estou.

Mas você, meu bem,
Você não vem...

Ensaio: Sobre Ser e Estar ou A Metamorfose da Vida

Sobre Ser e Estar ou A Metamorfose da Vida
(Mateus Almeida Cunha)


Sim, eu carrego comigo essa dor e essa dúvida de ser ou de estar. Na verdade, de ser e de estar. Ser? Estar? Sim, a dúvida de ser eu, de ser humano, de ser racional diante de tanta irracionalidade que me permeia e tantas outras coisas que não saberia dizer: apenas sentir. A dúvida de estar: estar num mundo errado ou viver num tempo errado. É preciso, mais que viver, sentir a essência da vida. Porque existem pessoas DO mundo e pessoas NO mundo. Eu não pertenço ao grupo das pessoas do mundo, posto mesmo que estou aqui de passagem. Mais que conflitos, alucinações. Mais que verdades, mazelas sagazes. Mais que angústias, miragens. Mais que viver, sentir. Estar. Ficar. Estar. Esperar. Estar. Fincar. Estar.

E como um passageiro que percebe, após uma longa viagem, estar no vôo errado, eu tento retroceder. Não retrocedo. Fujo das coisas, de mim, e me calo frente aos acontecimentos que nunca cri existirem e nunca supus controlar. Porque viver dói e sentir a vida dá taquicardia tal qual a espera da morte do paciente terminal, pela família. Eles se encontram e choram. Eles rezam, mas eu não sei rezar. A linha tênue que liga a vida à morte me espreita sorrateira por meses contínuos. É bem verdade que, às vezes, ela afrouxa e dá uma trela aos acontecimentos de mim mesmo. E isso me basta para descansar. E penso ter curado, mas cura não há. Eu tento fugir: eu não fujo. Eu tento sumir: eu não sumo. Eu tento morrer: morte não há.

Hoje, apenas observo o jardim que tem vida e dá vida. Ele é verde, entre tanto marrom-barrento por sua volta. Entre tantos indícios do pó primordial que nunca cri sua existência, senão que um mero mito. As folhas me encantam e atraem de tal forma que não consigo pensar em outras coisas, senão às minhas mesmo. É engraçado e, no mínimo estranho, pensar que a folha que hoje observo não existia há um mês e não existirá daqui a um mês. Tal qual a passagem do tempo se torna cruel. Mas como senti-la, senão quando se comparam fatos que nos atraem? Como sentir a vida lhe pulsar pelo sangue que circula, senão quando lhe fere a pele e o fluido escarlate escorre? Uma folha viçosa, com o brilho da própria luz do dia a lhe refletir num processo que nem a química fotossintética mais pura saberia descrever a equação da beleza. Talvez, algum desses grandes gênios do Renascimento pudesse detalhá-la minuciosamente de tal forma numa pintura tão real que a própria tinta fugisse mais da tela do que o próprio brilho da sua essência. Não sei se uma tela poderia reproduzi-la tão fielmente, já que a interpretação que possuo ao olhá-lo pode-se dizer que seja primária. A do artista seria uma outra interpretação primária, própria da sua criação e inspiração momentâneas, e eu faria um interpretação secundária da interpretação primária da figura original. Não. Isso não é difícil de se entender e nem sei mesmo porque detalhar uma observação tão fútil e coerente da realidade, já que o pensamento nos faz donos do próprio pensar-existir. Penso, logo existo. Essa frase não é minha, mas estou apoderando-me dela de tal forma que poderia escrevê-la em qualquer texto de minha autoria que, se não fosse consagrada pelo uso entre os filósofos e intelectuais, poderia dar-me a sua autoria. Não, acho que não quero tê-la como minha, já que se fosse minha ela não teria tanto sentido para mim, mas sim para os que a apreciassem e ela se perderia de mim, tal como se perdeu desse pensador. Talvez porque a existência pseudo-desconhecida das coisas nos dê uma excitação de posse muito maior que a própria satisfação do ato da criação concluída. Ela não me pertence, mas a partir de hoje será minha. E quando se toma algo como seu, primeiramente é preciso acreditar que aquilo lhe pertence, para só depois fazer os outros acreditarem. Quando se cria uma mentira é preciso fazê-la tão bem que você mesmo seja capaz de acreditar na sua existência e refutar veementemente qualquer criatura que tente desmerecer o seu crédito.

Aquela folha que, entre tantos milhares de outras, observo não sabe da minha existência. Nunca pedi que soubesse da minha existência, mas se ao menos a observo por alguns instantes, o mais justo seria ter a sua retribuição. Pensando (mentindo) apenas para mim mesmo que a folha pode estar também me observando atenta e fazendo suposições do que fui, sou e serei, é bem verdade que isso me anima. Pouco abaixo do seu talo, observo uma forma tão disforme, ao longe, da minha posição de observador reflexivo-enigmático que não serei capaz de dizer o que se trata. Possui uma forma delgada e alongada com uma coloração que se assemelha ao próprio caule do vegetal, e que não lhe pertence. Ou melhor, pode até pertencê-lo, uma vez que está unida (aparentemente) de tal forma como uma anomalia vegetal. Porque isso me intriga. Por que isso me intriga? Com o olhar aguçado que só a curiosidade é capaz de produzir identifico que se trata de um casulo. Seria uma borboleta a se esconder, entre tantas outras árvores no mundo, no meu jardim? Um borboleta a, quando se metamorfosear, farfalhar no meu jardim. É impressionante como esses seres conseguem suportar a sua existência. Sim, porque eles se suportam. E isso é tão verdadeiro que, ficam num casulo, escuro, privados da visão do mundo a observar apenas para o seu próprio eu. E depois de um largo período, talvez uma grande epifania faça-os mudar para poder suportar o mundo. O seu mundo. O meu mundo. O nosso mundo. E quando mais tarde lhe ressurgir a vida, será forte o suficiente para se libertar de sua própria prisão, bater as asas tão frágeis e diminutas e ser capaz de levantar vôo. Será capaz? E como será capaz de ver o seu casulo pelo lado externo, após um período de tanta tê-lo visto (e vivido) internamente? Nos metamorfoseamos a cada dia.  

Poesia: Eu? Não. Meu Eu!

Eu? Não. Meu Eu!
(Mateus Almeida Cunha)


 
Introspectivo
Reflexivo
Pensativo
Fugidio
Melancólico
Metafórico
Evasivo
Urbano
Caótico
Ateu
Musical
Contestador
Filósofo da meia-noite


Uma incógnita,
Uma dúvida,
Uma pergunta,
Uma questão,
Um silencioso cubo de treva, Drummond
Uma certeza.


Dúvida?
Certeza!
Silencio

Sofro
Não Amo
Choro
Sorrio
Fujo


Eu mudo
Eu tremo
Eu mudo
Eu mudo, eu mudo, eu mudo
Meu mundo
Minúsculo mundo
Poético mundo

Anti-blasè

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Crítica: A Confissão de Lúcio (Mário de Sá Carneiro)



A Confissão de Lúcio
(autor: Mário de Sá Carneiro)




O poeta e escritor português Mário de Sá Carneiro possuiu uma vida muito conturbada, cheia de adversidades. O autor, por si mesmo era conflituoso, talvez pelo fato de ser homossexual numa época em que a sociedade era tão conservadora. Foi contemporâneo (e amigo) de Fernando Pessoa e, pouco antes de morrer, escreveu algumas cartas para esse, afirmando que não estava mais resistindo. Depois, resolveu vestir um smoking e se suicidou no quarto de um hotel, antes de completar seus 26 anos.

A cantora e compositora Adriana Calcanhotto musicou um de seus poemas, intitulado "O Outro":

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio.
Que vai de mim para o Outro.



Na novela "A Confissão de Lúcio", Mário de Sá Carneiro apresenta a história de um escritor que inicia a história contando que foi preso por dez anos, por conta de um crime, considerado passional, que não cometeu. Mas que, por ser inverossímil, nem valia a pena defender-se.

Tudo começou quando muda-se com um amigo (o escultor Gervásio) para Paris, para cursar Direito e, numa festa promovida por uma estadunidense ("americana") muito liberal conhece o poeta Ricardo de Loureiro, com quem mantém uma relação de amizade profunda ao longo do tempo.

Há um tom de homossexualidade em vários trechos, dentre eles:

“Mas uma criatura do nosso sexo, não a podemos possuir. Logo eu só poderia ser amigo de uma criatura do meu sexo, se essa criatura ou eu mudássemos de sexo.”

Passados alguns acontecimentos, ele e Ricardo se separam (o poeta volta para Lisboa) e depois se reencontrarem. Ricardo está morando com Marta, uma mulher que desperta o interesse e a curiosidade de Lúcio, por não saber a sua verdadeira origem. Quando o poeta retornou de Lisboa, Lúcio afirma:

"As suas feições haviam-se amenizado, acetinado - feminilizado, eis a verdade."

Ele e Marta tornam-se amantes e depois ele descobre que ela também possui outros amantes além dele, com o provável consentimento de Ricardo. Há um triângulo amoroso entre Lúcio, Ricardo e Marta. Lúcio irrita-se com a falta de orgulho de seu amigo e foge de todos até que, um dia, sem esperar, reencontra-se com seu velho amigo Ricardo... 

Ricardo, toma-o pelo braço e leva para a sua casa. Chegando lá, veem Marta segurando um livro. Ricardo pega uma arma do seu paletó e desfere sobre Marta:

"E então foi o Mistério... o fantástico Mistério da minha vida...

Ó assombro! Ó quebranto! Quem jazia estiraçado junto da janela não era Marta - não! - era o meu amigo, era Ricardo... E aos meus pés - sim, aos meus pés! - caíra o seu revolver ainda fumegante!...”

Marta desaparece como uma ilusão e Ricardo morre com o tiro desferido nela. É como se Marta fosse o próprio Ricardo, recriado por ele próprio para poder ter uma relação homoafetiva com o seu amado amigo Lúcio.

Esse livro é muito bom!


Crítica: O Senhor do Senhor dos Anéis - O Mundo de Tolkien


Crítica: O Senhor do Senhor dos Anéis
(autor: Lin Carter)





Engraçado como nunca escrevi nada sobre "O Senhor dos Anéis", que tanto gosto. Hoje é a primeira postagem, não propriamente sobre a obra, mas sobre um dos livros que a cerca: "O Senhor do Senhor dos Anéis, o Mundo de Tolkien", de Lin Carter. O livro não foi escrito por conta da explosão após o lançamento do filme, como David Colbert escreveu o (ruim) "O Mundo Mágico do Senhor dos Anéis".

"O Senhor dos Senhor dos Anéis" foi escrito em 1969 (para os que não sabem, o "O Senhor dos Anéis" é de 1954) e relançado recentemente. No original, o título é "Tolkien: a Look Behind The Lord of the Rings". Portanto, a tradução do título (Editora Record) não foi muito feliz...

Lin Carter apresenta conhecimento da obra, apesar de, na época, "O Silmarillion" (de Tolkien, lançado em 1977) e outras tantas obras do professor (e filólogo) Tolkien ainda não terem sido publicadas. Faz ainda uma profunda análise de livros e mitologias que o influenciaram (nórdica, inglesa, latina etc.) e obviamente influenciaram a sua obra. Em alguns momentos, por conta da quantidade de obras citadas, de personagens e de autores, o texto torna-se complexo, mas nada inviabiliza a (boa) leitura.

Foi muito curioso, inclusive, saber que Saxo Gramaticus escreveu uma obra sobre um certo príncipe "Amlet", onde seu pai é morto. E Shakespeare, muito depois escreveu a obra "Hamlet", sobre um príncipe (também dinamarquês) que teve o pai assasinado... 

Crítica: Hilda Furacão

Crítica: Hilda Furacão
(autor do livro: Roberto Drummond)



Confesso que sou apaixonado pela minissérie produzida pela Rede Globo, na década de 90, intitulada Hilda Furacão. Apenas depois de alguns anos soube que, como de costume, a minissérie era uma adaptação da obra homônima de Roberto Drummond (que também aparece como personagem, na sua obra).

Há algumas diferenças entre a minissérie e a obra original (livro), principalmente pela não-linearidade dos fatos (existente) no livro e também:

-  O frei Malthus usava óculos;
-  Hilda Furacão não decidiu ir para a Zona Boêmia no dia do seu casamento, até porque não havia casamento;
- Hilda Furacão tinha um namorado, mesmo morando no quarto 304 do Maravilhoso Hotel;
- Dona Loló Ventura era viúva e tinha o cabelo lilás (se não estiver enganado);
-  Etc.

O livro é muito bem escrito, numa linguagem extremamente acessível e muito objetivo: os fatos são narrados sem prolixidade. O interessante não é apenas a história da Garota do Maiô Dourado, do Minas Tênis Clube que decide tornar-se prostituta, mas a história que cerca tudo isso. A época da Revolução... Os conflitos políticos... A ideia controversa da criação da Cidade das Camélias... O jornalismo de Roberto Drummond (personagem)... Os conflitos "mundanos" do Frei Malthus... O sonho de Aramel, o Belo... O papel da religião e da arte na pequena cidade de Santana dos Ferros... 

Bem, a ida de Hilda Furacão para a Zona Boêmia também é um mistério no livro. Ela promete contar tudo ao seu amigo, jornalista (e narrador), Roberto Drummond (personagem), mas ela não o faz. Conta apenas da previsão da vidente que a sua maior escola seria a vida. E promete, depois de levar alguns anos na Zona Boêmia, largá-la no dia do seu aniversário (e o faz), no dia 1º de abril. Detalhe: o dia da mentira!  

No final, apesar de decidir ficar com o Frei Malthus, eles se desencontram (de forma muito mais dramática que na minissérie) e não ficam juntos. Hilda muda-se para a Argentina e eles não mais se veem. Ah, o "santo" Malthus larga o seu futuro na Igreja...
Roberto Drummond (escritor), certa vez, numa palestra, tentou convencer os alunos de que Hilda Furacão existiu e que deveria estar linda ainda (na época, com mais de 60 anos!). Será mesmo que Hilda teria existido ou foi (apenas) mais uma brincadeira de Roberto Drummond, por conta do 1º de abril?

Vale a pena lê-lo!

domingo, 2 de janeiro de 2011

Poesia: Mude o Mundo

Primeira postagem de 2011... Que venham muitas!



Mude o Mundo
(Mateus Almeida Cunha)



Mude
Mude, mude
Mude o mundo
Mude o seu mundo
Mude o meu mundo
Eu mudo a face do mundo
Eu me mudo. Eu mudo
Refaça o mapa-múndi
Mude o mapa-
múndi. Mundo?
Mudo

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Música: Poema

Belíssima canção que Ney Matogrosso interpreta. Após esse hiato produtivo de mais de um mês sem postar nada no blog (e sem escrever nada, até mesmo fora do blog), peço desculpas aos seguidores. Mas, todos têm os seus momentos de altos e baixos, principalmente literários...




Poema

Intérprete: Ney Matogrosso
Composição: Cazuza / Frejat


Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo e procurei no escuro
Alguém com seu carinho e lembrei de um tempo
Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo
Hoje eu acordei com medo mas não chorei
Nem reclamei abrigo
Do escuro eu via um infinito sem presente
Passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim
De repente a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua
Que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio mas também bonito
Porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu
Há minutos atrás

domingo, 31 de outubro de 2010

Poesia: Vende-se um Coração

VENDE-SE UM CORAÇÃO
(Mateus Almeida Cunha)


        [poema resgatado de manuscritos
do ano de 2005 ou 2006.
Esquecido pelo tempo,
dormindo num sono tranquilo e profundo]


Vendo um coração semi-novo, pouco tempo de uso,
com pouca, quase nenhuma experiência amorosa. 
Passou por algumas emoções, é certo
mas, nenhuma como a que se pretendia.


Batidas cardíacas rítmicas, compassadas:
traz também tantas tristezas...

Funciona quase perfeitamente:
só não dispara grande emoções.


Permanece gélido, fraco, inconsólito
carregando em si, sua própria seiva: sangue.


Rubro, já não se declara:
repara os enamorados.


Quem o quiser, falar com
o Sr. Preciso Amar Agora.


Endereço: Rua da Saudade, n.º 103
Edifício da Carícia, 4º andar, Praça dos Amantes.


Observação: único dono.
Pouco uso pelas circunstâncias.




[comentário: fiz numa época em que lia Drummond 
com uma intensidade fantástia e acho que, 
nesse poema, consegui carregar um pouco da sua influência.
Ao reler, percebi isso.]

sábado, 30 de outubro de 2010

Crítica: Histórias de Canções: Toquinho



Crítica - Histórias de Canções: Toquinho


Há bastante tempo que eu não postava uma crítica literária. Não que eu tenha parado de ler. Pelo contrário, a leitura continuou, mas não sei explicar o motivo de não fazer meus comentários. Anteontem comprei um livro muito bom intitulado "Histórias de Canções: Toquinho", que foi lido compulsivamente (acabei de lê-lo ontem). O livro foi escrito por João Carlos Pecci (o irmão de Toquinho) e por Wagner Homem, como continuação da série que trata do processo de composição de algumas canções (já saíram os de Chico Buarque e de Paulo César Pinheiro). A publicação é da editora LeYa, lançado agora em 2010.

Há aquelas pessoas que, de imediato, não conseguem saber quem é Toquinho, mas basta entoar alguns versos da canção Aquarela ("Numa folha qualquer eu desenho um Sol amarelo..."), para reavivar suas memórias. Antonio Pecci Filho pode parecer um "desconhecido", mas o apelido dado pela sua mãe por ser um "toco de gente" (na primeira infância) fez de Toquinho um artista incrível, cheio de parceiros fantásticos (Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Paulo César Pinheiro, Sadao Watanabe, Francis Hime etc.), marcado principalmente pelos acordes harmoniosos no seu inconfundível instrumento: o violão. 

E, aos que não sabem, a surpresa de que a canção Aquarela, ou melhor, "Acquarello" foi criada originalmente em italiano, em 1982, numa parceria com os italianos Maurizio Fabrizio (melodia) e Guido Morra (letra). Enquanto Toquinho e Fabrizio faziam a melodia, Toquinho sugeriu que usassem parte da melodia da sua canção com Vinícius, "Uma Rosa em Minha Mão", do álbum da trilha sonora da novela Fogo Sobre Terra (1974), da Rede Globo. Fabrizio topou e, segundo o livro, em menos de três minutos eles tiveram a melodia da sua composição de maior sucesso e com repercussão mundial. Depois, Guido Morra ficou incubido de letrá-la. Após o estrondoso sucesso que fez na Itália, Toquinho resolveu fazer uma versão para a sua canção em português. Também foi um sucesso no Brasil, Argentina, França... Eu tenho, inclusive, uma versão dela também em espanhol. Certa vez, ouvi uns boatos de que existe outra versão em francês, mas nunca consegui encontrar...

O livro aborda tudo isso, com ênfase no processo "criatório" das canções, passando também por uma breve biografia do cantor, compositor e instrumentista, além de situar o leitor na época histórica em que os fatos aconteceram, com histórias muitas vezes hilárias sobre suas parcerias. É evidente que muito mais poderia ser abordado (algumas vezes o foco parece ser no nosso, agora Embaixador, Vinícius de Moraes). O livro muitas vezes limita-se a escrever apenas um parágrafo para explicar uma canção. Há a abordagem na apresentação, em algumas páginas, de parte da sua discografia (mas, pelo que conheço, muitos de seus álbuns não foram sequer comentados. Para ter certeza disso, bastou eu olhar para a minha coleção com seus CDs). Como ponto fraco, há também algumas falhas recorrentes na grafia, com erros grosseiros da nossa língua portuguesa (falta de pontuação, falta de concordância em número, inserção de letras que não existem, como no caso do colega Mutinho que, num momento virou "MuItinho"). O final, que poderia ter sido em chave-de-ouro, com os próximos passos, talvez, limitou-se a apenas um parágrafo, seguido de uma foto de contraste (com a do início do livro) de Toquinho, na idade adulta, com seus pais.

No ano de 2009, depois do show com o MPB 4, no Teatro Castro Alves (Salvador, Bahia), tive a oportunidade de tirar uma foto com essa figura fantástica que marcou minha infância (pelas canções) e que faz parte da minha "trilha sonora de vida" até hoje. 

Entretanto, os pontos fracos citados não inviabilizam a leitura da obra que é fantástica, com uma narrativa extremamente leva e empolgante, principalmente com as letras das canções que são colocadas estrategicamente antes ou após as suas respectivas explicações. Muito bom! Vale a pena!

domingo, 17 de outubro de 2010

Divagações: O Amor Não Resolve Nada (José Saramago)

O AMOR NÃO RESOLVE NADA
(José Saramago)


Concordo mais uma vez com Saramago... Essa história de amar uns aos outros não existe. Temos de RESPEITAR uns aos outros! Como posso amar um estranho? Tenho apenas de respeitá-lo e isso basta.

Por Fundação José Saramago  (http://caderno.josesaramago.org/2010/10/01/o-amor-nao-resolve-nada/ )


O amor não resolve nada. O amor é uma coisa pessoal, e alimenta-se do respeito mútuo. Mas isto não transcende o colectivo. Levamos já dois mil anos dizendo-nos isso de amar-nos uns aos outros. E serviu de alguma coisa? Poderíamos mudá-lo por respeitar-nos uns aos outros, para ver se assim tem mais eficácia. Porque o amor não é suficiente. [José Saramago]

“Saramago, el pesimista utópico”, Turia, Teruel, nº 57, 2001

Divagações: Não se sabe tudo, nunca se saberá tudo (José Saramago)

NÃO SE SABE TUDO, NUNCA SE SABERÁ TUDO 
(José Saramago)



O texto a seguir foi retirado integralmente do Blog de Saramago, O Caderno, que eu já acompanhava desde antes da sua morte. A postagem está disponível em: http://caderno.josesaramago.org/ . Acho que não há nenhum comentário a fazer já que, por si só, ele é autossuficiente.


Outubro 15, 2010 por Fundação José Saramago


Não se sabe tudo, nunca se saberá tudo, mas há horas em que somos capazes de acreditar que sim, talvez porque nesse momento nada mais nos podia caber na alma, na consciência, na mente, naquilo que se queira chamar ao que nos vai fazendo mais ou menos humanos. [José Saramago]



In As Pequenas Memórias, Ed. Caminho, 2006, p. 17

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Ensaio: Legalização do Aborto

LEGALIZAÇÃO DO ABORTO
(Mateus Almeida Cunha)


Considero a prática do aborto algo abominável, com algumas exceções: risco de morte à mãe, anomalias e/ou mutações que impliquem na vida da criança, estupro e outras situações específicas. Portanto, sou contra o aborto (o ato). Entretanto, não sejamos hipócritas a ponto de tentar tapar o Sol com a peneira (como se dizia antigamente), cerrando os olhos e crendo que vivemos num mundo ideal (que não existe!). Aborto sempre existiu e, até que se prove o contrário sempre existirá (infelizmente). As civilizações antigas têm relatos (provas) da existência de fetos oriundos de abortos. Chás de ervas abortivas também são muito antigos.

O fato é que, atualmente, no ato abortivo quando "bem sucedido" (se é que essa expressão "bem sucedido" pode ser usada...) "apenas" a criança morre. Entretanto, pelas condições precárias de higiene/salubridade das atuais "clínicas" clandestinas de aborto, é muito comum que a (ex-)gestante fique com alguma infecção, hemorragia ou sequela para o resto de sua vida. Hemorragia essa que, por muitas vezes à leva a morte. Se fosse legalizado, ao menos existiriam clínicas "decentes" para realizar esse ato repugnante e, na maioria das vezes, abominável, e ao menos as mulheres não morreriam. "Apenas" a(s) criança(s) morreria(m). Não pensemos nisso como um ato em que induziria as mulheres a praticarem. Isso é besteira! A pergunta é: você, mulher, faria algum aborto só porque seria legalizado? Você, homem, crê que sua mãe, esposa ou filha começaria/começará a sair abortando em suas gravidezes acidentais só porque é/seria legalizado? Quem sempre o fez continuará a fazer.

O cigarro é uma droga legal e eu (assim como diversos amigos e familiares) nunca fumamos (tampouco experimentei) só porque é uma droga lícita encontrada facilmente. Por que, com o aborto seria diferente? Temos diariamente dezenas de escadas à nossa frente e nunca nos jogamos delas. Por que, uma mulher, que nunca cogitou abortar, em sã consciência iria fazê-lo só porque seria legal? Isso faz sentido?

Não queiramos permanecer na sombra, causada por nós mesmo e vamos enxergar as coisas como eles são: vamos salvar, ao menos, uma vida ou vamos continuar fazendo de conta que esta tudo bem, deixando que dois/duas morram por vez?

Pensemos assim: contra o aborto (em condições de irresponsabilidade) e à favor da sua legalização. Vamos salvar ao menos uma vida, já que não temos domínio das duas! 

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Ensaio: Dilma não vencerá as eleições

DILMA NÃO VENCERÁ AS ELEIÇÕES
(Mateus Almeida Cunha)

Dilma não vencerá as eleições! Não digo eleição, mas eleições, porque soa a ELES “SÕES” uns merdões... A candidata do presidente Lula, sim: essa deve ganhar. A primeira presidentA (sic!) do Brasil. Preferia ter umA presidente, não uma presidentA. Soa parecido com presidANTA. Quando me refiro à candidata de Lula que, por acaso é Dilma, quero dizer que poderia ser qualquer pessoa (ou “não-pessoa”), como Fofão ou até mesmo a Vovó Mafalda. Dilma dará continuidade aos “grandes feitos” do governo paterno-assistencialista de Lula, cheio de auxílios-miséria: Bolsa-esMOLA, Bolsa-QUADRIlha, Auxílio-MAIS etc. Não podemos esquecer que, para Obama, Lula é “O Cara” (creio que, com o ó e o cê maiúsculos) enquanto que, para Caetano Veloso, ele é um cafona grosseirão (apesar do disse-não-disse, foi-não-foi, desculpas-não-pedidas-pedidas), “ou não”, como Caetano disse que nunca disse o “ou não”. E Caetano está certo.

Essa eleição me pareceu uma grande corrida de personagens de desenho animado. De um lado, a candidata de Lula (Molusco), Dilma (Calça Quadrada), para governar o Siri Cascudo... De outro, Mr. Burns (d’Os Simpsons), José Serra (a Amazônia), querendo dominar Springfield (possivelmente no eixo Rio-São Paulo), com as questões da Saúde (talvez por puro arrependimento pela Usina Nuclear de Springfield em que Hommer Simpson trabalha), para se redimir. Temos também a doce Marina (em quem votei, votaria e votarei na próxima eleição, em 2014. "Marina morena, Marina...") que parece o Capitão Planeta e o lema: “o poder é de vocês!”, com as forças da natureza “fogo”, “água”, “terra”, “vento” e “coração”. Acho que as personagens representavam esses poderes, mas é bem provável que a memória tenha falhado. Plínio não parece um desenho animado, ele é de carne e osso (mais osso do que carne, inclusive...). Sua figura assemelha-se à Spock (ou Spok, não sei) daquele seriado antigo intitulado “Jornada nas Estrelas”. Se não me engano (e quase nunca me engano), só restam duas opções parE (ops! "... parA...") Plínio: (1) voltar para o seu planeta de origem e nos mostrar o seu líder ou; (2) voltar para o Velho Testamento da Bíblia, como irmão de Noé, de Caim ou algum outro daqueles personagens sesquicentenários que só a Bíblia retrata existirem.


Então, fico com a pergunta: o que será do Segundo DURmo?

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Reflexão: Ser Feliz Serve pra Quê?

Preciso ler mais Clarice Lispector! Já se foram: A Hora da Estrela, Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, A Mulher que Matou os Peixes, A Paixão Segundo G.H. e Um Sopro de Vida (Pulsações), mas ainda estou sedento.

Hoje, o que mais me instiga nela é: "ser feliz serve pra quê?"

Eu também não sei,
afinal todos morremos um dia!

Daqui a setenta anos,
setenta meses,
setenta semanas,
setenta horas,
ou setenta minutos?
Hoje, se tenta viver.

A hora, sessenta minutos,
enquanto sessenta segundos,
carregam o minuto etéreo.
Hoje, se senta, e se espera.

Cinquenta anos em cinco, JK. Agora eu te entendo!

Sem mais, Mário, "alguns passarão, eu passarinho".