quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Ensaio: Nós Não Somos... Quem Somos: Somos Aquilo Que Fizeram de Nós

 
NÓS NÃO SOMOS... QUEM SOMOS: SOMOS AQUILO QUE FIZERAM DE NÓS
[Mateus Almeida Cunha]



Somos temporalidade e culturalidade. Somos o que somos ou, melhor, quem somos, por questões temporais e culturais. Aos poucos, tornamo-nos seres. A realidade que temos (ou cremos) não foi por nós construída, mas nos foram atribuídas, muitas vezes sem questionamentos. E, a ausência de questionamentos, transforma-as em dogmas. Não há questionamentos para essas verdades. Mas por que não as temos? Por que não as criamos? Aceitamos, por medo de parecermos estranhos num grupo sociocultural que nascemos. E o medo faz parte do nosso instinto ancestral de sobrevivência. Porque sem os medos, degradaríamos (e destruiríamos) a nossa própria vida. Poderíamos subir sem o medo da queda ou poderíamos nadar até exaurirem-se nossas forças até o afogamento eminente.

Somos temporalidade porque se nascêssemos em outra época não seríamos quem somos. E somos culturalidade porque somos quem somos graças ao que nos é transmitido. Portanto, somos instante e cultura. Se tivéssemos nascido há alguns bons anos, seríamos especialistas em datilografia e não teríamos nenhum tipo de conhecimento em informática, já que esta não era de domínio popular. E se, ao contrário, nascêssemos daqui a muitos anos poderemos ter (ou desenvolver) habilidades que não temos (ainda) e talvez não consigamos nem supor tê-las. O fato de não termos nascido homens fortes na Roma Antiga deixou-nos o (anti-)legado de não sermos gladiadores, bárbaros e, por algumas vezes, primitivos. E se os fôssemos, poderíamos ser fortemente exaltados, reconhecidos e dignificados pelo fato de sabermos matar. E, nessa mesma Roma, a presença de uma deficiência física seria responsável por sermos assassinados ainda crianças, lançados de penhascos por não podermos servir ao seu Exército, tamanha era a sua crueldade com os que não lhe serviriam. Porque poderíamos fazer orgias sexuais com naturalidade que, muitas vezes, hoje, ainda são vistas com maus-olhos porque isso ainda não é aceito explicitamente. Seríamos politeístas, faríamos oferendas. Seríamos tão diferentes...

Ao longo dos anos tornamo-nos hipócritas. Porque somos politicamente polidos a chamar as putas, de profissionais de sexo, ainda que o nosso pensamento primário venha a ter a palavra pu-ta. Sim, putas. Que mal há em dizer algo exatamente da forma em que pensamos a forma da palavra? Porque somos forçados (obrigatoriamente e necessariamente) a padronizarmos nosso vocábulo, torná-lo culto, entendível e politicamente correto. Não chamamos mais os pretos de cor de pele, de pretos, mas ascendemos uma cor a uma cultura e os chamamos de afrodescendentes. E não nos esqueçamos que somos pretos e brancos e vermelhos e amarelos. Prefiro dizer que somos seres, apenas, porque não há mais raças. Há seres, apenas, e isso basta.

Torna-se muito claro, portanto, a fragilidade na qual estamos submetidos quando da nossa fase de entendimento de mundo e autoentendimento. Qual a nossa autenticidade? Quanto do nosso pensamento é, de fato, nosso, e quanto dele foi-nos transmitido e moldado? Porque engolimos as convenções sociais, as leis, os mitos, os dogmas, o conceito de ética. Mas, muitas vezes, apesar de engolirmos tudo isso, não digerimos. Entalamos, vomitamos e temos novamente de engolir. Essa é a vida tal como ela é. Basta abrir os olhos. Mas, cuidado, não os abras demais, pois podes cegar-se. Mascaram-nos e mascaramo-nos. No fundo, somos fruto do que querem que sejamos.

Nós não somos, portanto, quem somos, porque somos aquilo que fizeram de nós. O que nos passaram, moldaram, cuspiram, ensinaram, reiteraram, confirmaram, negaram, confundiram, sacanearam, dignificaram e, por fim, o óbvio: o que querem, de fato, que sejamos. Somos esses outros serem cobertos de máscaras sociais multifacetadas para o escritório, as férias, a família, os amigos, o seu íntimo, que nos querem. O nosso próprio íntimo. O que nos faz fortes e nos decepciona. O que nos empalidece. O que nos fortifica. O que nos dignifica? Um brinquedo a ser doado no Natal? Um pacote de arroz a ser doado numa campanha beneficente às vítimas de enchente? Um colchão velho e que nos é inútil a um desabrigado? Fazer uma apresentação de coral num asilo no dia do idoso? Comprar flores e dar às mulheres no seu dia? Encher nossos infantes de doces e brinquedos eletroeletrônicos no Dia das Crianças? O que nos faz felizes? O que é felicidade? O que é ser feliz? Ser feliz é estar. Estar? Sim. Estar. Estar bem, sentir-se bem, fazer-se bem e fazer o bem. Isso pode ser um passo para a felicidade. Mas não nos esqueçamos do autoconhecimento. Do saber o que se gosta, o que se é e o que se quer. Isso esbarra profundamente no que querem que gostemos, que querem que sejamos e que achem que queremos.

Tiremos, então, as máscaras e mostremo-nos quem somos. Mas, cuidado, a máscara pode estar a tanto tempo fixada-lhe à face que não seja mais possível arrancá-la. Ou, se arrancá-la, pode ficar com marcas profundas, causados por si mesmo. Pelo que gostaria de ser, e não o é, ou, pior, pelo que queriam que fôssemos. Fernando Pessoa escreveu, certa vez: “Fiz de mim o que não soube, e o que podia fazer de mim não o fiz”. Façamos, então, o que podemos fazer para nos mostrar. Mostremo-nos. arranquemos as máscaras e saiamos do palco. Corta!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Ensaio: Sobre a Palavra (ou Sobre Uma Palavra)

ENSAIO: SOBRE A PALAVRA (OU SOBRE UMA PALAVRA)
[Mateus Almeida Cunha]



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos"
[Carlos Drummond de Andrade]


Uma palavra, muitas vezes, é tudo o que se quer ouvir. Na verdade, é apenas o que se quer escutar. Apenas uma palavra, sim: uma palavra. Aquela palavra não dita. Aquilo que o próprio silêncio se encarrega de contar, quando o óbvio é mesmo óbvio e o indizível toma conta de todo o ser. A não-palavra. E, quando se deve calar, surge aquela palavra. Quando se quer calar: uma palavra. Quando não se deve calar, nenhuma palavra. Apenas uma palavra para se fazer feliz, para enaltecer. Também há aquela palavra que faz entristecer e, dela, melhor nada ser dito. Quero que digam-me palavras belas em doses homeopáticas sempre pelas manhãs para que, ao acordar, sinta-me amado e também ao final do dia para que, ao dormir, sinta-me reconfortado.

Quanto tempo dura o silêncio? Não me venham com a palavra escrita cheia de normalismos ou formalismos, porque eu quero mesmo é a palavraverdade, a palavrassorte e a palavramor. Todas assim, ditas como se tudo fosse tudojunto, sem pontuação, sem som, sem ordem, sem melodia. Quero essa palavratrêmula a vibrar as cordas vocais do narrador e reverberar meus tímpanos. Bum... bum... um... um... hum... hum... m... m... Retumbantes sons reverberando na caixa craniana a banhar-me se sensações orgásmicas: o neologismo. Surpreenda-me com a palavrainexistente, a não-grafia, como um soco a penetrar-me perante o desconhecido. Como uma palavraenormeamepenetrar e me entalar com que ouvi e não consegui decifrar. Como um vômito da palavrassincera. Neologismos necessários. Surpreenda-me: ashs gasm razm fazmem dzárguem. Oh sim, como lhe escuto. Não ouso compreender, mas prometo escutar-lhe. E quando eu digo lhe escuto é porque soa melhor que o te escuto, que parece afastar-nos. Juro guardar o seu sibilar sonoro sincero em suaves e solitárias emoções a surpreenderem-me em um único nós. Porque assim não estaremos sós, com a palavrajunto. E não ouse pronunciar a palavrerrada para que tudo se finde.

E não me canso de inventar a palavrencantada: contarei ûma istória a algúmas crianssas que não saybam ex-crever. Num reino tão-u diztante e muinto longe daqui vivia umafada. Umafadamuinto linda que çonhava encontrar um príncipe emcantado para cazar e... Eu poderia fazê-las muito felizes. Porque não se é feliz: está-se. Está-se feliz. E se for apenas uma história oral, elas nunca saberão que meus rabiscos que a fizeram felizes por instantes carregam palavras que, em si, em sua carne, não se sustentam na ortografia. Porque aqui, permito-me. Porque aqui permito-me ser-e-escrever comoquizer umacertesa: serei lido e, melhor, compreendido. De que me vale a forma? De que vale a padronização para se viver se mesmo sem pontuação e sem métrica e sem rima e sem respiração com a repetição dos dias é que vivemos e repetimos e repetimos e repetimos e se vive e se entende e ainda assim sem fôlego toma-se fôlego e entende-se o que deve ser entendido porque a maldita forma da palavra dita essa palavra mal dita ou melhor essa palavra maldita pode arrancar lágrimas e sangue e silêncio e solidão e esse corre-corre dos nossos dias que nos faz deixar de pensar o que fizemos hoje e ontem e anteontem e trasanteontem e na semana passada e no mês passado e sabemos apenas que houve Natal e Dia das Crianças e Dia dos Pais e São João e Dia das Mães e Páscoa e Carnaval e Natal e Dia das Crianças e começamos e recomeçamos e terminamos e ciclotizamos e cansamo-nos e dormimos e sempre cansamos e cansamos e cansamos e enjoamos e dormimos. Ufa! Mas a verdade é que cansamos. E cansamos de nossas vidas. Ah, como cansamos. E aqueles que acham que não estão cansados, ai desses... Tsc tsc tsc... É preciso ouvi-los com a alma, pois eis que não sabem dizer a verdade ou, pior, não a ousam. Porque a verdade dói e é cruel: crudelíssima.

Em sua essência a palavravida é que nos move. A palavramor é que nos reconforta. A palavradistração é que nos faz felizes. A palavrarrespeito nos torna humanos e a palavrahumilhação, a tragédia de nossas vidas. E ainda assim rezam. E como rezam para que, como num ato de desespero, como uma última esperança (pois é ela – e apenas ela – que resta) sejam ouvidos. E assim a palavrarreza nasceu não se sabe quando, nem onde, em ladainhas desde os primórdios. Sabe-se apenas por quê. Talvez porque sejamos incompletos ou, pior, queiramos estar incompletos. E isso basta. Porque deixamos a palavrassilêncio fluir e, em sua seiva, ela carregará a palavrassom e nos carregará, em matéria de carne e osso para o sepulcro na palavrador. Mas não nos deixar cair em tentação e livrai-nos de todo o mal.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Ensaio: Sobre o Silêncio (ou Sobre a Solidão)

Ensaio Sobre o Silêncio 
(ou Sobre a Solidão)
[Mateus Almeida Cunha]



Não ouço a sua voz. Nada! Depois de tudo o que temos, que somos, que fizemos, só tenho o seu silêncio. Nada mais: apenas o silêncio. Um silêncio crudelíssimo a me penetrar vagarosamente o corpo, surgindo-me distintas emoções recheadas de pensamentos que certamente não traduzirão o que estou sentindo ou que deveria sentir.

Esse seu silêncio significa a sua ausência, que é muito pior que a sua presença em meio a discordâncias. Essa sua voz que não ouço, esse vazio que me dói, essa angústia que me preenche. Essa ausência que me corrompe... Como um cristal, pseudo-pétreo, sou frágil. Só caibo em mim. E se caio, meus cacos não "me farão ser-me" novamente. Porque não sou: estou. Porque não vivo: sobrevivo. Porque não falo: silencio.

Entre duas paredes, o maciço. Entre olhares flertivos, fugidios, felinos, felizes, fugazes, me firo. Não me refiro às barreiras intransponíveis, mas ao fato de ter sido posto um ponto: um muro
entre dois mundos. Um muro. Um mundo. Um novo mundo. Mudo-me, faço-me, refaço-me, desfaço-me, construo-me, desconstruo-me, reconstruo-me a cada silêncio. A cada ausência disfarçada, a cada silêncio seu, sozinho, sonho, sofro, sufoco e esses seus atos que me vêm à cabeça, seus atos, seus atos, seus atos, seus atos, seus atos, seus atos... Seus autos!

Tranquilizo-me com aquilo que somos, que temos, que não somos, que dissemos, que somos, que fizemos, que não somos, que contamos, que somos, que choramos. Agora não estamos. E fica a lembrança ou (des)consolo do seu não-som...

As horas têm sido difíceis. Nunca disseram que não seriam assim, mas a esperança faz da nossa vida uma arte e, nessa parte, nunca entendi (ou nunca me quis entender). Eu nunca cri em verdades não ditas, mas no silêncio maldito, um medo atroz. Fujo. Fujo-me. Finjo. Finjo-me. Malditas palavras não-ditas. Antes tivesse ouvido: - adeus. Mas o silêncio prossegue nesse castigo a me atormentar: o seu silêncio.


Escrito integralmente no celular, durante o show de Vitor Passos e Victor Longo, ao ler um e-mail de Ana Patrícia com a temática sobre o silêncio, de autoria desconhecida. Rio Vermelho, Salvador, 18/10/2011. Ilustração de  Eduard Münch, "A Separação II", sugerida por Ana Patrícia.

Ensaio: Sobre a Existência (ou Sobre a Resistência)

Ensaio Sobre a Existência 
(ou Sobre a Resistência)
[Mateus Almeida Cunha]



Existe-se. Apenas isso: existe-se. E nada mais se sabe. Nada mais se saberá ou se quererá saber: existe-se. Sabe-se que se vive, sabe-se que se morre e sabe-se que não se sabe. Nada (ou quase nada) se sabe ou se saberá (espanto!). Existe-se. Resiste-se.

E como num vão suspiro, num átimo, sobrevivo. Apenas isso: sobrevivo. Em meio a olhares fugidios de cidadãos desconhecidos, ouso lançar olhares flertivos a quem me interessa. Por ora, nada tenho feito, já que nada (mais) me interessa. Já que nada me toca e numa tentativa anti-blasè, me espanto. Mas, nada mais me admira, pois há anos tenho-me admirado a cada dia, esgotando-me lentamente. Seria a velhice o ápice da ausência total de sentimentos, gastos por toda uma vida? Seria a escolha que se faz, uma própria não-escolha que não se escolhe? Existe-se. E apenas isso: vive-se. Sobrevive-se.


"Se você gostou muito do dia, então viva outro melhor"¹. Conseguem-se dias melhores? Como fazê-los? E se os fazemos, como permanecê-los ou, melhor, como congelá-los se somos a cada dia (im)postos a descer nessas "escadas rolante da  gente"¹? Como se esquecer daquela angústia que ficou e, se não ficou, como saber mastiga-la, degluti-la, digeri-la, expeli-la? Porque existimos. Porque queremos existir e, se não o fazemos, atropelamo-nos ou atropelam-nos. A verdade é que estamos sendo atropelados a cada dia. E se não o queremos, como não permiti-lo? Existimos. Repetimos.
  
Deve ser frustrante não se fazer o que se gosta. Deve ser frustrante não conseguir fazer o que se quer. Porque somos frustrados. Porque, lá no fundo, temos um sonho idealizado, não realizado. Porque lá no fundo, dói não executá-lo. Porque dói não expô-lo da forma que se queria. Que se gostaria. Que se quereria. Enfim, que se realizaria. Porque somos frustrados e frustramo-nos pelo fato de sê-lo. Porque não somos o que somos. E, se somos, apenas isso: somos. Somos? Existimos e frustramo-nos.

Felicidade? O que é ser feliz? "Ser feliz serve pra quê", Clarice [Lispector] O que basta para se tornar feliz? Sim, Foucault, "o que estamos fazendo de nossas vidas?". O que queremos de nossas vidas? O que tentamos? O que somos? O que queremos? O que partimos? O que morremos? O que faremos? O que faremos? O que faremos? O que faremos? O que faremos? O que faremos? O que faremos? O que faremos? O que faremos? O que faremos? O que faremos? 


Desespêro. Desespéro (acentuação graficamente incorreta, mas necessária para o entendimento - se é que algo aqui é entendível e se é que a vida, per si, é entendível). Desesperamo-nos quando não sabemos o que fazer. E gritamos e choramos e pedimos e sentimos e fugimos e perdemos e não sabemos. E existimos. Apenas isso: existimos nessa visão existencialista tendendo ao pessimismo. Existimos? Resistimos. Frustramo-nos e resistiremos. Enfim, isso é a existência: a plenitude que não se completará jamais.

¹Excerto da canção "As Escadas Rolantes da Gente", de Victor Longo


Escrito integralmente no celular, durante o show de Vitor Passos e Victor Longo, no Rio Vermelho, em 18/10/2011. Pena que, devido a uma pane no celular, perdi uma boa parte do texto (cerca de dois parágrafos).

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Poesia: Sobre a Solidão VIII

SOBRE A SOLIDÃO VIII
[Mateus Almeida Cunha]



O silêncio!
(escuta)
Ouve essa não-voz que lhe chama
Ouve essa voz que lhe clama
Que que muda, que lembra, que pede.

Em meio a tantos amores perdidos,
correspondidos ou não,
deixados no tempo, em vão,
esquecidos, perdidos
uma lembrança a surgir.

A solidão!
(escuta)
Sente esse vazio que lhe vem
Sente esse vazio que lhe tem
Que que grita, que fica, que implora

Em meio a tantos corações destroçados,
dilacerados ou não,
largados no tempo, se vão,
despercebidos, partidos
uma lembrança a fugir.

O vazio!
(escuta)
Sente essa angústia que lhe corrói
Sente essa angústia que lhe dói
Que chora, que fere, que dilacera.

Entre tantos amores feridos, uma enorme desilusão.
Entre tantos amores antigos, a imensidão da solidão.
Entre tantos amores esquecidos, a vastidão da solidão.
E uma sombra a nos rodear.

Poesia: Autoconstrução

AUTOCONSTRUÇÃO
[Mateus Almeida Cunha]


Construir-se:
transmutar-se,
permitir-se,
Ousar-se.

Construir-se:
modificar-se,
deixar-se,
Sentir-se.

Construir-se:
defender-se,
preservar-se,
Ruir-se.

Construir-se:
aceitar-se,
duvidar-se,
Fluir-se.

Construir-se:
mastigar-se,
deglutir-se,
Digerir-se

Autoexilar-se em introspecções vãs
ou autossustentar-se em idéias sãs.
Deixar-se ser.
Enfim,
ser.


Poesia: Nada se Sabe

NADA SE SABE
(Mateus Almeida Cunha)


Não há mais nada além de lágrimas e solidão
O tormento dos que tentaram esquecer da dor

Não há mais tanta lágrima, solidão...
O tormento dos que haviam esquecido da dor


Quem sabe, o medo deixe de existir
Quem saberá?
Quem sabe, a angústia se finde
Quem saberá?
Quem sabe, tornemo-nos mais frios
Quem saberá?
Quem sabe, queiramos apenas lutar
Quem saberá?
Quem sabe, brindemos a vida
Quem saberá?
Quem sabe, sonhemos
Quem saberá?
Quem sabe, recomecemos
Quem saberá?
Quem sabe, aquilo, de dentro, se extinga
Quem saberá?

Quem quererá?
Quem ficará?
Quem mudará?
Quem aceitará?
Quem acatará?
Quem chorará?
Quem findará?
Quem fincará?
Quem brilhará?
Quem adotará?

Nada se sabe
Nada se saberá
Nunca se soube
Nunca se saberá

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Divagações: Vida Reticente...

DIVAGAÇÕES: VIDA RETICENTE...
[Mateus Almeida Cunha]


É... no fundo sou mesmo reticências...

Gostaria de ser um ponto final, definido. Uma afirmação. Ou uma conclusão.

Talvez uma vírgula, uma explicação, um opinição, uma afirmação.

Já sei! Uma exclamação! Aí sim seria bom! Bom mesmo!

Seria então uma interrogação (de mim mesmo)? Teria outra vida? Quereria? Gostaria? Amaria?

Nada disso... sou reticências... não completo... talvez explique, não sei... é... talvez seja isso mesmo: reticências... continuo sendo... indo... fazendo... enfim... continuo...

#reflexaodanoite...
#filosofianoturna...
#existencialismo...
#reticente...
#...
...
 
Obs.: postado inicialmente via Facebook

domingo, 11 de setembro de 2011

Ensaio: Imortalidade

Não gostei do final, mas vai assim mesmo...
Mateus
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ENSAIO SOBRE A IMORTALIDADE
[Mateus Almeida Cunha]



- Serão todos imortais.

Foi tudo o que se ouviu, há muito tempo, em algum lugar isolado do planeta. Uma voz vinda do céu, quiçá de algum deus ou deuses ou uma brincadeira de algum cientista do Governo local que, há anos vinha tentando imortalizar seus cidadãos secretamente, por meio de substâncias químicas injetadas em seus corpos quando nasciam: as vacinas. E aquela voz soou com força de Lei, como Decreto ou algo assim. E assim ficou definido: ninguém morrerá. E todos acreditaram. Não se sabe exatamente a data precisa dessa notícia, mas sabe-se apenas que foi numa sexta-feira, pois sexta-feira sempre se é um bom dia para boas notícias.

Sim, ninguém mais morreria a partir daquele instante. A partir de então, tudo ficou mais claro e mais interessante. Não precisariam se preocupar com viroses e abandonaram os cuidados necessários para evitar as suas transmissões; e largaram os remédios de uso contínuo para as doenças crônicas; e o sexo inseguro ficou liberado; e inexistiu a higiene corporal (lavagem de mãos e face e boca e de todo o resto do corpo); e a população, como num ato de revolta, lançou seus antibióticos em fontes e poços e rios e lagos e mares, já que não haveria mais infecções bacterianas.

Era certo que agora estavam imortalizados. Poderiam não fazer nada por todo o dia e em todos os dias, pois nada mais seria necessário: apenas viver-se-ia. E isso era bom. Colocaram um “velho calção de banho”, pois tinham “o dia pra vadiar, um mar que não tem tamanho” e, para completar, ainda havia um “arco-íris no ar” e naqueles “espaços serenos, sem ontem nem amanhã”, argumentaram “com doçura” e perceberam que “sentir a Terra rodar é bom”.

E aumentaram (os que consumiam) o uso de drogas ilícitas e de álcool ou começaram a fazê-lo (os que não consumiam); e abandonaram seus trabalhos porque não precisariam mais de dinheiro para comprar alimento; e fizeram muito sexo sem limites e sem responsabilidade; e viveram... e fizeram... e compraram... e usaram... e não fizeram... e não compraram... e não se cuidaram, afinal, imortalidade é imortalidade.

Mas aquilo não era uma verdade plena. Sim, seriam todos imortais, mas não fisicamente. E isso não foi decifrado em sua essência. Estariam vivos em ações, em emoções e em lembranças, mas isso não foi suficientemente entendido pela população, que estava ávida por vida (física) eterna. E começaram a adoecer e a morrer rapidamente, de forma que só sobrou uma pequena parcela da população. E essa pequena parcela guardou com muita dor aqueles momentos intensos que haviam vivido, resultando em mortes acidentais, disseminação de doenças, partos prematuros e tantas outras coisas que não deveriam ser lembradas, pois não poderiam ter acontecido. Mas aconteceram. E foi com muita dor que, de certa forma, aqueles que se foram ficaram imortalizados na memória dos que viveram sem excessos.   


[inspirado em um livro de José Saramago que iniciei a leitura há alguns anos (e não finalizei, tampouco lembro o nome), na música de Toquinho e Vinícius, Tarde em Itapoã e em loucuras momentâneas]



segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Poesia de Cordel: Epopéia Universal



Iniciei essa poesia de cordel há alguns anos e a esqueci completamente e nunca mais retomei por conta das atribuições do dia-a-dia (ou mesmo por negligência). Fuçando outros arquivos no computador, achei. Espero um dia terminá-la, mas é tão audaciosa que, da formação do Universo até chegar aos dias atuais ainda faltam milhares de anos e centenas de estrofes com milhares de versos.

Tomara que ainda tenha fôlego pra retomar...

Mateus




EPOPÉIA UNIVERSAL
[Mateus Almeida Cunha]









CANTO I – DO SURGIMENTO DO UNIVERSO


Sob o silêncio da escuridão e do vazio
Uma enorme massa densa expandiu
E assim, o Universo então surgiu

Como numa dança, o espaço se definiu
E desde então, o tempo, estático, existiu
E o tempo e espaço se uniram por um fio


O ermo, por muitos anos permaneceu
Nem mesmo uma estrela apareceu
Como um lugar que alguém esqueceu

Só mesmo o raio do Universo cresceu
E se expandiu em meio a tanto breu
Quiçá, uma luz um dia se acendeu


Ao acaso, de forma tão excepcional
Por um longo tempo, assim descomunal
Começou a moldar-se a sua forma atual

No negrume do espaço sideral
Uma galáxia, a Via Láctea, surgiu fenomenal
Em sua forma de poeira em espiral


E assim, carregando em seu ventre estelar
Oito planetas ao Astro-rei a acompanhar
E a Terra com uma lua prata a circundar

Nas explosões solares, toda a energia a irradiar
Percorrendo o espaço, nos confins do Sistema Solar
Para, na Terra, a sua luz visível espraiar


CANTO II – DA FORMAÇÃO DA TERRA


Os átomos, em ideais combinações
Formaram as moléculas através de ligações
Cuja química e física nem faziam previsões

Que, aos poucos, foram grandes alterações
Responsáveis por diversas interações
Causadoras até mesmo de várias sensações


Os vulcões logo foram se encarregando
Das primeiras rochas irem moldando
Os grandes morros, em cordilheiras de alinhando

As erupções foram-se acabando
As rochas, em pedaços, se fragmentando
E o solo, então, se formando


Certos gases, no início se agruparam
E em condições ideais, a água formaram
Que em chuvas torrenciais os solos alagaram

Lavaram a terra, e seus sais carrearam
Até as depressões, os oceanos se formaram
E os primeiros seres, no mar habitaram


Houve um fluido, a “sopa primordial”
Que carregou a vida em sua forma inicial
Cuja circunstância parecera muito especial

Para dar início assim à vida natural
Que hoje vê-se em sua forma habitual
Em meio a tanta criação intelectual

 

CANTO III - DOS SERES VIVOS


Os vírus, com sua composição tão inusitada
Podem permanecer por longo período de forma estagnada
Ou espalharem-se celeremente de forma descontrolada

A célula de outros será por eles roubada
Para em seu núcleo haver uma mistura integrada
E sua reprodução, então ser realizada


Outros seres, assim como a bactéria
Podem emergir de forma deletéria
Carregada, em outro ser, por sua artéria

Para o enfermo, sua vida uma miséria
Mas há também a decomposição da matéria
Como função da saprófita bactéria


Os peixes, em grupos, sempre em natação
Possuem brânquias, decerto pra respiração
Fazem dos recifes sua habitação

Aos cardumes saem em competição
E se, por descuido, não há atenção
Há sempre um predador, e os faz refeição


Entre a terra e a água, numa vida dividida
Os anfíbios, uma fauna escolhida:
o elo entre os peixes e répteis, refletida

Os girinos com sua cauda encolhida,
E os sapos a pular de forma desmedida
A coaxar nos brejos ou na lagoa escondida


Com a aparência sempre a amedrontar
Pecilotérmicos, os répteis têm o Sol a lhes esquentar
Em copas de árvores, areias ou lagos a nadar

Alguns, com patas firmes a caminhar
Outros, sem patas, fadados a rastejar
Ou os carnívoros, nadando sempre a assustar


Sem ossos, possuem o tamanho diminuto
Os insetos são animais de grupo astuto
Em sociedades, as formigas possuem seu estatuto

As aranhas constroem suas teias em meio minuto,
Para a sua presa, atacar de jeito arguto
Dos casulos, saem as borboletas como um fruto


Com as asas se impondo ao céu a voar,
Penas coloridas, para o corpo enfeitar
E o bico, da comida a se alimentar

Algumas aves insistem em nadar
Mas não podem ao mergulho arriscar,
Com o fato de, talvez se afogar


Dotados de leite para a cria fornecer
Os mamíferos são fáceis de entender
Podem ter patas para, na terra correr

Asas para, voando, a noite percorrer
Ou mergulhando a respiração prender
São versáteis para a presa entreter


CANTO IV – DA EVOLUÇÃO DO HOMEM


Dos primatas houve grande evolução
Quando o homem pôs em si a indagação
Que o conhecimento é o artifício da criação

E pôs-se, do caminhar quadrúpede, a abolição
Iniciando a sua era de destruição:
Dos recursos naturais, a degradação


Nos primórdios havia mesmo o nomadismo
Quando havia então, o predatismo
Era o início do seu especismo

Em certas tribos, o canibalismo
Que i’nda se sustenta como vandalismo
Ou talvez um fatalismo


E pôs-se ao fogo ter dominação
E transformou as grutas em habitação
Onde era mais fácil a proteção

Havia de aumentar sua população
Para a sua espécie ter dominação
Sobre os outros seres, a escravidão


Com algumas habilidades, pôs-se em alguns lugares a quedar
De lascas de pedras e madeiras, os instrumentos a criar
Por certo que isso, em muito na vida iria facilitar

E seu meio, em muito já estava a transformar
Com as primeiras árvores a cultivar
De seus frutos poder-se-ia alimentar


CANTO V – DA ORGANIZAÇÃO PRIMÁRIA


Para um líder possuir sua ascensão
Era necessário o artifício da comunicação
Como uma primeira ferramenta da corrupção

Decerto que os bens começaram a ter distinção
E os clãs de digladiavam em competição
Disputando territórios, poder e principalmente atenção


Para demonstrar quaisquer habilidades,
Haviam-se de construir as primeiras cidades
Ainda que as residências tomassem certas liberdades

E se organizavam, cada vez mais, em sociedades
E a matemática urgia como uma das necessidades
Sem as teorias que impunham as suas veracidades


Os continentes, por ora se dividiam
Em povos que, entre si, competiam
Em línguas que se desconheciam

As atitudes brutais assim surgiam
Onde outrora inexistiam
E suas idéias e ideais não confluíam


CANTO VI – DAS CIVILIZAÇÕES ANTIGAS


Dos vestígios das antigas civilizações,
Quiçá nunca se saberão suas limitações
Outras tantas com crédulas religiões

Esquecidas, pouco mencionadas em canções
Como as históricas grandes navegações,
Nos mares, desaparecidas suas embarcações


No Nordeste da África, uma grande cultura emergiu
Às margens do Rio Nilo uma cidade se construiu
Em região desértica, abundante chuva por vezes caiu

Muito se beneficiaram do regime de cheia do Rio,
com depósitos de humos, na estreita margem surgiu
Em seu politeísmo, nenhum deus o Egito omitiu


Menés, seu primeiro faraó concentrava todo o poder
Como forma da economia servil se desenvolver
E seus escravos, sem qualquer tipo de lazer


(...)


(Incompleto. Um dia ele será finalizado. Espero...)

Poesia: Paixão



Paixão
[Mateus Almeida Cunha]



Entre dois mundos, um muro
e o silêncio e nos calar.

Numa súbita ausência a fraquejar
Como uma pétala, no ar, repousar.

Como o silêncio mudo que dói
Como o silêncio profano, corrói.

Entre tanta angústia,
Entre tanta audácia,
Entre tantos carinhos,
Entre tantos, sozinhos.

Entre dois muros, um mundo
E o silêncio a nos incitar.

Num súbito mistério a se mostrar,
Como numa folha a, no ar, se evolar

Entre tantos anos,
Entre tantos, vamos
Entre tantos olhares,
Entre tantos sonhares,

Apenas esse seu olhar
e esse meu sonhar.
Apenas esse seu gostar
e esse meu amar.

Eternamente a me devorar

domingo, 15 de maio de 2011

Ensaio: A Difícil Arte de Ser

A Difícil Arte de Ser
Mateus Almeida Cunha



Como poder ser o que se quer, quando esperam algo (a) mais? Como decidir-se a ser o que se quer ser, quando há uma expectativa incisiva sobre a sua figura? Talvez o próprio fato de simplesmente ser: sem censuras. Dificuldades cotidianas que constantemente passamos e/ou somos postos em prova (em prova ou sumariamente reprovados?)...

Portanto, a cada (vão) instante, tenho a certeza de que as pessoas diferentes não se sentem bem num mundo onde, cada vez mais, obrigam-nos a tornarmo-nos iguais. É como se nosso corpo abrigasse um ser que, por ora, não fosse um ser. Ou melhor, não fosse: ser. A sociedade, a cada dia, tenta nos moldar a padrões sociocomportamentais arbitrariamente pré-estabelecidos. Sim: arbitrariamente! E quando nos afastamos (ou quando tentamos nos afastar desses dogmas (sic!) socioculturais, somos tidos como loucos ou, pior, excêntricos.

Então, como ser? É preciso mudar. Lembro dos versos impactantes de Ferreira Gullar:


"A vida muda como a cor dos frutos lentamente e para sempre
A vida muda como a flor em fruto velozmente"


Portanto, é preciso ser breve nas decisões. É preciso ser breve nas mudanças. É preciso correr riscos. É premente/urgente e necessária a mudança. De forma (bastante) piegas, é preciso que a lagarta, com muito sofrimento, se metamorfoseie (sic!) para transformar-se em borbolela. Ela virou outra. Ela ganhou sua liberdade de voar (literalmente, mas em sua essência metafórica) para ser o que foi fadada a ser: borboleta. A lagarta foi apenas uma passagem necessária em sua breve vida. Em alguns momentos precisamos rastejar. Em alguns momentos não podemos voar. Mas há um dia em que, trancando-se em seu próprio mundo (nosso casulo) e observando-se mais que a tudo e a todos, esquecendo o mundo externo, apesar dos acontecimentos que não deixam de ocorrer, sentimo-nos. Sentimo-nos. Nos sentimos em nosso próprio corpo. O corpo, enquanto morada do ser que querem que se seja ou apenas do que se é. O corpo que se é! Antes, não fosse... Mas há um (difícil) momento em que temos de optar entre continuar como uma lagarta rastejante ou voar como borboletas arriscando-se ao perigo da queda. Agora, prefiro voar, apesar da incerteza dos ventos...